Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

A guerra pela eternidade do futuro.

A etnografia é o estudo da vida material, social, de crenças religiosas e sistemas de comunicação de um determinado grupo com o objetivo de descrever o mais fielmente possível a sua vida. O estudo geralmente é composto de monografias desses grupos culturais, a partir de trabalhos de campo e da observação direta. Ao utilizar esse método antropológico o etnógrafo Benjamin R. Teitelbaum no livro War for Eternity procurou analisar comportamentos e ideias de três intelectuais contemporâneos, Steve Bannon, Alexandre Dugin e Olavo de Carvalho, e suas supostas ligações com regimes políticos da chamada direita alternativa, que nada mais é que um eufemismo para a extrema direita, ou seja, grupos sexistas, conspiracionistas e de supremacia branca. O autor escolheu esses três intelectuais devido não apenas a uma certa aproximação com líderes políticos de direita, no caso, Donald Trump, Vladimir Putin e Jair Bolsonaro, mas essencialmente por uma, também suposta, formação cultural comum baseada no Tradicionalismo, definido por ele como uma escola filosófica e espiritual “subterrânea”.

Mesmo amparado pelo método antropológico o autor confessa que seu interesse pelo assunto foi motivado pelo medo e pelo alarme. É até compreensível, uma vez que ele entende o Tradicionalismo como a fonte do mal, o espírito por trás de grupos radicais e preconceituosos.

É verdade que o Tradicionalismo tem uma crítica profunda contra a modernidade e ao se combinar com radicalismos ideológicos à direita ou à esquerda potencializa toda e qualquer motivação e seu livro pretende denunciar tal radicalismo na nova direita.

A crítica à modernidade é apenas uma das camadas que o Tradicionalismo apresenta e o autor faz sua defesa da modernidade tão somente por ridicularizar, com uma ignorância acadêmica, a complexidade dos temas como um mero labirinto de conceitos metafísicos ou saudosismos medievais. Os personagens centrais dessa trama não foram escolhidos para aprofundar nossa compreensão sobre o Tradicionalismo, mas servem, ao contrário, para torná-lo ainda mais obscuro. Todos eles em têm uma aproximação tanto do Tradicionalismo quanto do poder político de tendência mais conservadora e o autor, de maneira engenhosa, procura ligar as contradições e conflitos da ação política com um certo obscurantismo do Tradicionalismo em sua crítica à modernidade. Ele transforma assim tanto esses intelectuais quanto os projetos políticos, que supostamente apoiam, em ícones do obscurantismo, do atraso e um perigo ao progresso. O principal tema do livro, no entanto, não foi apresentado: o Tradicionalismo.

Com uma breve descrição, quase marginal, o Tradicionalismo foi apresentado como um amalgama esotérico de crítica filosófica ao progresso. Ainda que tenha citado expoentes  como René Guénon, Frithjof Schuon, Julius Evola dentre outros o autor apresentou o Tradicionalismo a partir do que os tais gurus da nova direita entendem sobre o assunto, em rápidas entrevistas, com lacunas mais abissais que o obscurantismo alegado.

A tecnocracia que o progressismo moderno avassalador nos impõe e o distanciamento do homem comum de uma elite cada vez mais globalista, não preocupam o autor, mas está no centro do debate tanto pelos políticos dessa nova direita quanto seus supostos gurus. Na verdade o autor pressupõe que tais críticas são puro anacronismo. Eu poderia arriscar que a tese central do livro é a de que a crítica ao progressismo é uma escatologia mais artificial que a cibernética.

Para ilustrar as incongruências e perigos do Tradicionalismo o autor apresenta contradições e radicalismos na vida e obra do três gurus. Ele acha estranho o aparecimento de Steve Bannon nos EUA como ligação entre o homem médio e suas origens tradicionais, pois nega que tais raízes existam nos EUA. Apresenta Olavo de Carvalho como um discípulo rebelde do Tradicionalismo e fundador de sua própria seita e Alexander Dugin como um rasputin de Vladimir Putin. As contradições das ações políticas desses intelectuais em torno do poder são usadas como provas cabais da incongruência e anacronismo do próprio Tradicionalismo. O autor se gaba de um método científico, mas confessa aversão preconcebida e sua obra não passa de um folhetim de bastidores onde não sabemos realmente nem o que é o Tradicionalismo e nem e o que realmente pensam os tais gurus.

É sintomático que o mais profundo conhecedor do Tradicionalismo, Olavo de Carvalho, não apenas pela profundidade intelectual, mas por sua participação em um caminho ascético, tenha sido o mais desprezado em suas investigações. Justamente o intelectual que venceu um debate contra Alexander Dugin, foi cortejado pelo próprio Steve Bannon e seja o mais avesso a qualquer projeto político. Leiam “Os EUA e a Nova Ordem Mundial. Um Debate entre Alexandre Dugin e Olavo de Carvalho”,

Embora tendamos a pensar em moderno como significando algo novo ou atualizado, a modernidade é tanto um método para organizar a vida social quanto um período histórico. Essa modernidade, assim como todo e qualquer método e período histórico é passível de crítica e o Tradicionalismo é apenas uma delas. De certo que o enfraquecimento do simbólico em favor do literal e o distanciamento da vida moderna da autêntica espiritualidade é uma das críticas mais contundentes de René Guenon e grandes intelectuais reclamam esse esvaziamento da modernidade, mas isso seria suficiente para vê-los como parte de um movimento unificado da direita pela tomada do poder e de uma séria ameça contra as conquistas da humanidade? O autor não esconde esse medo que cresce quanto mais complexo o tema se apresenta.

Os tradicionalistas apresentam valores em um sistema de pensamento muito além da política moderna de esquerda ou direita, mas o autor resume o Tradicionalismo como uma espécie de esoterismo do neofascismo, ainda que ele admita que os movimentos nacionalistas ao longo do planeta são meros arroubos anticapitalistas desajeitados.

O que é mesmo estranho e infantil é a tentativa de encaixar categorias diferentes sob o mesmo nível de realidade. A pobreza filosófica do autor não percebe a critica de valores atemporais do Tradicionalismo. Por exemplo, ele mistura o preconceito racial com o sistema de castas hindu, reduzindo tudo a categorias sociológicas. A análise que ele faz do sistema de castas com a hierarquia de valores e as eras históricas demonstra ignorância total do pensamento analógico. Para ele, religiosidade, antiguidade, raça ariana ou branca, masculinidade, hemisfério norte, adoração ao sol e hierarquia social são temas do tradicionalismo e prova cabal de que os movimentos de direita são ameaças de um novo imperialismo travestido de espiritualidade.

A crítica é mais apropriada ao italiano Julius Evola que realmente mais se aproximou de ações políticas concretas, e, talvez, o Alexander Dugin, dentre os três “gurus”, seja o mais próximo de tal desatino, mas pensar em soluções políticas sem observar a crise de valores a que estamos submetidos é apressar os passos rumo ao abismo.

Toda a contribuição filosófica, simbólica e poética do tradicionalismo foi reduzida a um maquiavelismo político para caracterizar a nova direita como um racismo intelectualista ou coisa que o valha. Assim ele mistura a crítica à modernidade, enquanto desprezo pelo passado e fé cega no progresso, com movimentos políticos de xenofobia, misoginia e repressão sexual. Ele se esforça para esconder a desonestidade intelectual de tais conclusões ao apresentar um emaranhado de personagens que defendem e publicam autores Tradicionais enquanto patrocinam suas ações políticas neonazistas.

A crítica valorativa que os tradicionalistas fazem é apresentada como uma mera agenda política reacionária e preconceituosa, quando, na verdade, a crise moral contemporânea é ela própria uma agenda forjada politicamente com reais intenções revolucionárias, ou seja, estranha à própria natureza humana e aos fundamentos sociais que mantém a comunidade humana coesa.

Confundir a reflexão do Tradicionalismo (perenialismo) ou a visão de mundo metafísica com um projeto político é  desonesto quando não um reducionismo tosco de todo o pensamento à categorias marxistas. O autor procura rastrear as atividades pedagógicas do Steve Bannon, do Olavo de Carvalho e do Alexander Dugin como se fossem representantes de uma Escola de Frankfurt invertida. Essa sim, foi um centro que disseminou a teoria crítica e criou uma agenda de corrupção do pensamento e do comportamento humano.

O livro é uma sequência sobre ideias e parcerias ocultas que operam nos movimentos populistas de direita em várias nações e o Tradicionalismo é utilizado como se fosse a filosofia unificadora de ações retrógradas. Ele tenta classificar o Tradicionalismo como um movimento político radical que busca criar uma ordem política diferente de tudo o que temos, quando na verdade o marxismo é a ideologia mais radical e revolucionária que a humanidade já viveu e ainda é hegemônica.

Sua análise é pontualmente pertinente em relação às pretensões políticas de Dugin que patrocina conflitos como se a Rússia contra o Ocidente fosse a expressão da luta da tradição contra a modernidade, mas projeta tais delírios para todas as manifestações políticas e críticas filosóficas contra a modernidade e elege o Tradicionalismo como a fonte de todos os males.

A desordem na geopolítica, o incentivo aos separatismos étnicos, sociais, sexuais e todo tipo de sectarismo é uma constante no movimento comunista, mas, segundo o autor, o Tradicionalismo, que sempre foi antirrevolucionário, é o verdadeiro espírito revolucionário a coordenar as ameaças da extrema direita.

O autor identifica no Tradicionalismo um ressentimento contra o multiculturalismo e uma crítica a uma certa impotência da democracia, mas não vê apenas anacronismo e obscurantismo nessa crítica e não percebe ou esconde que o verdadeiro movimento revolucionário patrocina e utiliza essa fragilização da democracia para criar um poder ainda mais totalitário, que já ultrapassa os conceitos de direita e esquerda.

É verdade que existe uma guerra pela eternidade, mas ela é antes a expressão da tensão entre o universal e o particular, fartamente observado ao longo da história da filosofia e na arena política entre o coletivismo e o individualismo.

Ao longo da obra descobrimos outras inversões, como seu conceito de metapolítica para qualificar a luta cultural como mais um exemplo da obscuridade da nova direita em sua busca pelo poder, quando sabemos que a hegemonia cultural é próprio da agenda progressista.

Ele resume toda a insatisfação dos britânicos que levou ao Brexit como uma vitória da metapolítica de Steve Bannon, ainda que tenha tido um papel relevante na vitória do referendo, conforme assinala Nigel Farage. Assim também os esforços de Bannon para criar uma escola na Europa baseada em valores tradicionais é considerada pelo autor como uma escola de fanáticos. A criação da TV Tsargrad, que foi baseada na Fox News nos Estados Unidos e se esforça para dar voz aos russos cristãos ortodoxos conservadores pode ser um instrumento manipulado por intenções políticas, mas, ainda assim, é tão legítima quanto qualquer canal de comunicação que divulga uma programação cultural oposta aos valores conservadores. O autor não esconde sua visão progressista e apresenta todo esforço contrário como uma ameaça a ser combatida. Concordo que uma guerra contra a modernidade é um projeto quixotesco, mas todos o são. Não acredito que possamos reviver a crença religiosa para servir a um propósito social ou político. A fé vem do coração e não pode ser convocada, mas implorada unicamente a Deus. Igualmente é absurdo esperar que a religião ou princípios esotéricos possam resolver todas as disputas e dúvidas da existência, mas por que estaríamos impedidos de buscar? Não somos todos Édipos? É claro que o autor já fez suas escolhas e suas análises acadêmicas não passam de rotulagem e preconceito.

Uma prova de que o autor desconhece a dimensão espiritual por trás das visões de mundo de cada idealismo político é a sua estranheza na ligação entre Tradicionalismo e populismo, pois, segundo ele, o Tradicionalismo é hierárquico e o populismo é contra elites. Essa confusão de categorias permeia toda a obra e em grande parte é consequência da pobreza intelectual que o marxismo nos deixou. O populismo é sim um movimento político anti-establishment, anti-elite e que defende as massas e repousa sobre uma real inquietação do homem médio contra uma elite cosmopolita e desenraizada. As tradições espirituais manifestam uma hierarquia de valores que são verticais e não horizontais. Não estou afirmando que o populismo seja fiel a tais valores, mas que nascem de um vazio, de uma humilhação sofrida pelo homem comum. A tese de que estrategistas da direita alternativa utilizam o Tradicionalismo como ferramenta ideológica para instrumentalizar esse anseio populista é interessante, mas está longe de explicar o próprio anseio, a própria crise gerada por um progressismo que é tanto de direita quanto de esquerda. É possível ver tais manipulações e apropriações em Alexandre Dugin, mas encontramos exatamente o oposto em Olavo de Carvalho cujo objetivo é pedagógico, intelectual e não a liderança de militantes.

O autor é obrigado a reconhecer que a hierarquia do Tradicionalismo expressa uma ordem sagrada da espiritualidade sobre o materialismo, mas ele está mais preocupado em criticar uma possível classe particular de pessoas que buscam revigorar tais valores. Steve Bannon, Olavo de Carvalho e Alexander Dugin são assim utilizados como espantalhos contra tais iniciativas.

A crítica dos autores tradicionalistas contra a decadência intelectual e moral de nossa elite também é a crítica de Steve Bannon, Olavo de Carvalho e Alexander Dugin, mas o autor vê nessa crítica uma simples vontade de poder oculta por um suposto obscurantismo e não observa a realidade mesma dessa decadência: a mídia não informa, os cientistas não fazem ciência, as universidades não ensinam mais e os políticos não entendem a política.

Por que a crítica filosófica ou mesmo uma ação política que procura dar voz ao mal estar de uma cultura seja condenável? O Brexit, a eleição de Donald Trump, Jair Bolsonaro e os vários movimentos políticos conservadores europeus são tão obscuros assim? O autor tenta desqualificar tais movimentos como consequência de estrategistas ocultistas e isso não é apenas uma desonestidade intelectual, mas uma estratégia em si mesma.

De todos os três personagens, o Steve Bannon é o mais respeitado pelo autor que até se esforça por alcançar uma possível unidade do seu pensamento, prejudicado não pela complexidade dos temas metafísicos, mas também pela própria fragmentação das entrevistas. Segundo ele, Steve Bannon acredita que o acesso a esses valores mais altos não é prerrogativa de um tipo de pessoa, mas está disponível para todos. Em vez de ter estágios fixos, a hierarquia seria como um caminho aberto para indivíduos e sociedades. O que Steve Bannon defende ele chama de “mobilidade espiritual” e compara com a insistência liberal no direito de melhorar a situação material ou a mobilidade econômica de alguém, o que estaria de acordo com o seu nacionalismo americano e seu compromisso com o homem que foi feito por si mesmo, transferido da economia para a espiritualidade, subindo assim na hierarquia, incorporando valores e essa seria a raiz de sua paixão pelo movimento em torno de Donald Trump.  Essa hierarquia social do Tradicionalismo, uma ordem de valores que se deslocam do material para o espiritual, é identificado pelo autor como uma “Metafísica do campesinato”, que dá título a um de seus capítulos. Esse é um dos melhores capítulos de seu livro, mas essa interpretação espiritual é rebaixada a um mero nacionalismo romântico.

Há muita confusão conceitual e apenas quem conhece as obras dos autores tradicionalistas pode desfazê-la. A confusão entre classe trabalhadora e o estamento espiritual ou entre minorias, que são categorias sociológicas marxistas, com a visão Tradicional da natureza humana são algumas delas. Olavo de Carvalho seria o único dos três com condições intelectuais para orientar adequadamente o autor nessa obra, se e somente se, o autor buscasse verdadeiramente compreender os fenômenos políticos atuais e a influência das várias correntes espirituais por trás delas.

Ainda que seja professor e autor de uma teoria política, “A Quarta Teoria Política”, Dugin é mais um ativista: promoveu políticas, organizou protestos, invasões e viajou pelo mundo pressionando governos por toda a Eurásia.  Bannon foi um feroz ativista político, sempre procurando reformular a cultura política e a sociedade nos Estados Unidos e na Europa Ocidental. Olavo é o único dos três com uma vida inteiramente dedicada à filosofia.

Acredito que o autor tenha sido levado a acreditar que há na direita alternativa um elemento nazista devido a aproximação que Julius Evola teve com o nazismo nos anos 30 e, ao identificar que a formação intelectual dos três maiores “influenciadores” dessa nova direita passa pelo Tradicionalismo, ele procurou identificar essa intenção oculta. A tese parecia promissora. O Julius Evola sabia que o foco dos nazistas na raça biológica eram sinais de que foram consumidos pelo cientificismo, ou seja, por formas modernas de pensar, e, por outro lado, ele decidiu melhorar a campanha alemã, reorientá-la, inspirar o misticismo em seu senso de raça, na esperança vã e bizarra de criar uma população totalmente ariana que buscava a pureza do corpo e do espírito. Nem os fascistas nem os próprios nazistas aceitavam a interpretação “espiritualizada” de Evola que foi realmente marginalizado. O autor acredita que os três líderes da nova direita têm semelhante idealismo espiritual. Isso parece ser verdade com Alexandre Dugin e o Steve Bannon, mas é escandalosamente falso em relação ao Olavo de Carvalho e por isso ele tenha sido utilizado de maneira tão decorativa nessa obra, mas assim mesmo o coloca como autor de um certo nazismo esotérico.

A estratégia de apresentar ideias como a “destruição criativa” como uma agenda do caos da nova direita é outro estratagema. Ele afirma que o Steve Bannon quer ver a desmontagem em massa de nossas maiores agências governamentais, e tudo isso ao lado de outras agendas de desmembramento da União Europeia, assim como do mainstream e do livre fluxo internacional de pessoas, bens e dinheiro. Ele cita o próprio Bannon para corroborar essa quimera: “para tornar a América ótima novamente, você precisa. . . você precisa interromper antes de reconstruir.”

A quem pertence o futuro? De certo que recuperar a eternidade é um sonho ou um pesadelo demasiadamente humano, mas jamais poderá sê-lo para os que condenam o passado, para aqueles que só acreditam no futuro, numa utopia cujo genocídio não depende de versões, a não ser que destruam a história.


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Direita, volver!

O povo parece ter acordado, como agente político, quando assistimos a manifestações populares em todos os continentes, contra vários tipos de regimes, movidos com certa espontaneidade, numa certa autonomia de lideranças político-partidárias, graças também ao fenômeno das redes sociais. Estaríamos no início de uma “democracia real” em oposição à democracia liberal? Essa polêmica está no centro das discussões acadêmicas e partidos políticos.

Entender esse fenômeno como um mero produto das mídias digitais é um estratagema sociológico que não apenas reduz a compreensão do fenômeno como também mascara uma manipulação reducionista, na tentativa de devolver as massas às suas lideranças tradicionais, políticas ou culturais. O controle das mídias digitais, seja por decisão autocrática de estados totalitários, seja pela ameaça legislativa à liberdade de expressão ao pretender o controle  de “fake news”, é justamente uma reação das instituições que perdem o controle da narrativa dos fatos e das decisões políticas.

Claro que essa tensão é consequência de múltiplas crises: a crise no emprego devido a revolução tecnológica, o choque civilizacional cuja crise migratória é um de seus capítulos, a desigualdade social, etc. O que parece unificar ou potencializar o descontentamento geral das populações, ainda que de maneira incipiente e amorfa, são, sem dúvida, as mídias digitais, mas elas, por si só, não explicam os motivos e os contextos sociais e históricos dessa revolta que se avoluma, dessas “primaveras” culturais e sociais.

Christopher Lasch em The Revolt of the Elites and the Betrayal of Democracy, desde a década de 1990, já apontava para uma tensão entre as elites intelectuais, políticas e artísticas, e o senso comum do homem médio. Esse homem comum, que estaria representado pelos valores tradicionais e espirituais que fundaram a civilização ocidental, estaria se rebelando contra toda uma agenda de engenharia social que contraria suas necessidades e valores mais básicos. A crítica social desse intelectual apontou para a decadência das liberdades das famílias e do homem médio, cada vez mais longe do homem cosmopolita, desenraizado e narcisista.

Mas quem é o povo? Ideólogos à direita e à esquerda disputam sua paternidade ao longo da história. Há preocupações legítimas em ambos os lados do espectro político, mas é inegável que as ideologias de esquerda historicamente são as que mais traem suas intensões humanistas levando o povo a níveis sociais e espirituais mais degradantes. Essa deficiência das ideologias de esquerda não se resume à incapacidade de suas soluções econômicas diante da complexidade da economia. A crise generalizada a que me refiro vai além da questão econômica.
Os inimigos do povo se encontram em ambos os espectros e tanto a decadência promovida pela ineficiência do socialismo quanto o progresso promovido pela eficiência do capitalismo comungam da ideia de uma engenharia social cujo avanço tecnológico tornará as próximas governanças num poder totalitário inimaginável. Esse é o núcleo da temática conservadora que incomoda à esquerda e à direita, ainda que seja mais próxima da liberdade econômica que a direita defende.
O progresso tecnológico, cuja miniaturização traz o controle e a monitoração cada vez mais próximo ao indivíduo, aumenta o poder de controle dos estados modernos como nunca na história. O caráter escatológico dessa crise e o que podemos fazer contra esse Leviatã já está anunciado desde as grandes tradições espirituais, mas isso exige mais consciência e responsabilidade de cada indivíduo. Essa pauta conservadora é o mais difícil de todos os desafios, pois como reascender o espírito empreendedor numa população aliciada pelo paternalismo estatal? Como reascender a responsabilidade moral numa população desleixada pelo hedonismo moderno? Como reascender a busca pela verdade numa população dominada pelo relativismo generalizado?

A unidade do que seja um povo, a consciência dessa unidade e seu conjunto de valores, por mais plural que seja, deve ser resgatada. Em nome dessa unidade, que não se confunde, com as ideologias coletivistas tirânicas do século XX, surgem líderes populistas ocidentais que travam uma luta quase inglória em várias frentes. Esses líderes não são plenamente conscientes da complexidade desses desafios, mas encarnam essa demanda histórica. Eles lutam para soerguer seus países do atraso econômico e social; lutam contra a perda da soberania pelo globalismo e lutam contra o espírito revolucionário que é tanto político quanto religioso.

A esquerda busca a unidade dos povos, mas a unidade que busca é a de uma massa de manobra a serviço de uma estrutura de poder ainda mais totalitária que todos os poderes que dizem combater. A fraternidade de esquerda é policialesca e sua igualdade não é a de oportunidades, mas a de resultados, forçando artificial e tragicamente a economia e a natureza humana. A direita, por outro lado, se colocou até então como uma mera reação ao subdesenvolvimento promovido pela esquerda e desdenhou, com raras exceções, os aspectos ideológicos. Esse erro fundamental fez da direita um mero mecanismo de correção econômica a ser espoliado pela esquerda futura. Esse mecanismo desgastou-se e uma certa urgência ideológica anima os novos movimentos populares, multiplicados também graças à tecnologia das mídias digitais.

Desdenhar esses aspectos ideológicos, pois, não é apenas pedantismo de uma isenção ignorante, mas um tipo de conivência perigosa.


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Em chamas

Mapa Celeste para Paris em 15 de abril de 2019, às 18:30h

Dia 15 de abril de 2019, Paris e Jerusalém, Notre Dame e Haram ash-Sharif, queimam no mesmo momento.
Aparentemente foram acidentes, em ambos os casos. E mesmo que não tenham sido, divulgar um possível atentado pode ser ainda mais trágico, conforme as estratégias do poder vigente.
Há muito o que se dizer sobre o desinteresse religioso ocidental que transforma nossas catedrais em museus, ou em cinzas, ou as reconstrói se forem centros turísticos – 13 milhões (que número) de turistas não é pouca coisa para a economia.
Notre Dame não sofre seu primeiro golpe e sabemos que a “revolução”, tão cantada, ainda não terminou para boa parte dos humanistas e tecnocratas que vêem no passado um empecilho. São todos pobres diabos que não percebem que essa revolução contínua já procura se livrar do próprio humanismo, abrindo o caminho não só para outras crenças “medievais”, mas para uma robótica cega ao infinito.


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Um negócio da China

A grande treta do momento é a confusão gerada pela viagem que deputados recém-eleitos fizeram à China e a suspeita de espionagem através de um software de reconhecimento facial. A mídia em geral critica o filósofo Olavo de Carvalho por uma suposta influência ideológica no governo. Há muita coisa em pauta, muito xingamento, mas as discussões levantadas pelo Olavo de Carvalho são muito importantes e um possível impacto na balança comercial não deveria encerrar tais discussões, que estão apenas começando num Brasil que se reconstrói com independência e coragem. Além do que a questão da espionagem tecnológica não é nenhuma novidade no cenário internacional. Desdenhar o avançado sistema de controle da população pelo governo chinês é no mínimo ingenuidade e encerrar essa discussão com a pecha de ideológica é de uma estupidez perigosa.

A China avança ferozmente seus sistemas de controle centralizado e o fato de sermos anões na geopolítica internacional não deveria nos eximir moral e estrategicamente. Claro que princípios, moralidade, valores não se conjugam sem um pragmatismo inteligente, mas não é essa a discussão que observamos na mídia e em alguns analistas de política e relações internacionais. Todos se apressam em defender uma análise puramente mercadológica e usam o Olavo de Carvalho como judas, como sempre, de forma covarde, disfarçada e ignorante. O fato de termos um governo dito liberal na economia nos condenaria a uma lógica puramente mercadológica? A guerra cultural que enfrentamos, e não apenas no Brasil, pode prescindir de uma análise sobre o poder para além do economicismo?

Os deputados que foram à China estão no meio de uma discussão que não compreendem e reagiram com  desespero e despreparo. Não podem opinar sobre o assunto, que na verdade são vários e complexos, e apenas defendem sua dignidade com xingamentos e afetações de honra.

O articulista Luciano Ayan comparou o Brasil com a Libéria dos anos 80 quando, ensaiando uma briguinha com países comunistas, se aproximou dos EUA que logo depois o abandonou, escondendo o fato de que o então presidente, Samuel Kanyon Doe, implantou uma ditadura baseada na etnicidade e reprimiu a oposição política. Como comparar o atual alinhamento político de Bolsonaro  com os Estados Unidos com o de Samuel Kanyon Doe?

A jornalista Vera Magalhães rebaixa ainda mais a crítica ao analisar toda a celeuma como uma mera interferência ideológica de um professor “online”.  A jornalista engrossa o coro dos detratores do Olavo de Carvalho, com igual empáfia e ignorância, ao identificar a “influência olavista” como uma mera indicação de cargos, quando devemos também ao trabalho pedagógico de décadas desse filósofo a possibilidade mesma da alteração de poder real, além das siglas partidárias, e a reinserção do Brasil nas grandes discussões da humanidade, estejamos ou não a altura delas. A análise segue sem identificar os problemas reais das relações internacionais que foram apresentados pelo Olavo em muitas de suas aulas e livros, principalmente na obra “Os Eua e a Nova Ordem Mundial” e tenta desmerecer a análise filosófica diminuindo a importância dos problemas discutidos, como se qualificar de “ideológico” fosse suficiente.

Muito ao contrário do que pretendem, a reação da mídia aumentou ainda mais o interesse pelo Olavo de Carvalho que, desde a eleição, triplicou a venda de seus livros, o que é um “negócio da China”.

 


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A Onda Conservadora

Conceituar a “onda conservadora” ou mesmo identificar a sua existência no Brasil não é tão fácil. Há um amálgama de ideias políticas, culturais e econômicas que podem não ser filosoficamente coesas, mas refletem uma certa unidade social contra um outro conjunto de ideias e práticas que comumente se resume como ideologia de esquerda, identificada não apenas como centralismo estatal ou totalitarismo, mas já como uma agenda de ideias progressistas que distanciam paulatinamente o homem de suas raízes biológicas, sociais e religiosas. Hoje temos mais clareza que essa agenda, a despeito de seu discurso inclusivo e humanista é, na verdade, totalitário.

Esse novo fenômeno social no Brasil, mais rotulado pela esquerda que auto-intitulado de “onda conservadora”, não pode ser reduzido a uma mera insatisfação popular.

Análises que entendem essa insatisfação como uma mera reação contra escândalos de corrupção e tributação escorchante são incapazes de perceber as variantes histórico-culturais do fenômeno, que não é só brasileiro.

Não é tão fácil comparar os movimentos sociais que irrompem no Brasil desde 2013 com a resistência na Polônia ou a eleição de Donald Trump nos EUA. Há uma diferença substancial quanto a consciência dos valores que se defende e isso é fundamental num movimento Conservador. Seria mais fácil identificar os valores de uma Tradição ameaçada na Polônia que no Brasil, e talvez estejamos desesperados por pertencermos a uma Tradição, mas, sem sombra de dúvida, estamos mais próximo do que se conhece como Tradição Ocidental do que daquelas que planejam sua extinção.

É igualmente reducionista identificar toda a corrupção política com a esquerda, mas o fato desta ter institucionalizado a corrupção e praticamente quebrado o país não deixa margens a nuances sociológicas. Ainda assim, a população surpreendeu teóricos e especialistas e expulsou de palanques e manifestações de rua políticos de vários espectros ideológicos. Não há dúvida de que a perda de identidade atinge a todos os partidos.

A reação popular no Brasil é contra o status quo e não se restringe ao denuncismo contra a corrupção, mesmo porque, graças a atuação magistral da “Lava Jato”, os grandes esquemas de corrupção foram desbaratados e mecanismos anticorrupção avançam para espanto do mundo inteiro e ainda assim a “insatisfação” avançou: derrubou o governo Dilma, elegeu Bolsonaro, discute a criação de ministérios, pautas da mídia, decisões do Supremo Tribunal, currículos escolares, tolerância religiosa, declarações de artistas e fazedores de opinião e parece não ter mais limites.

Esse movimento se observa em várias camadas sociais e não apenas de líderes intelectuais ou financiados por grupos econômicos que foram negligenciados pelo poder. De certo que as redes sociais tiveram um papel unificador muito mais eficiente que qualquer dos movimentos políticos históricos. Parece haver uma indignação uníssona, que ultrapassa as redes sociais e invade as aeronaves, os estádios de futebol, as ruas, praças.

É justamente essa inquietação contínua, essa crítica constante ao que é público ou publicado que está levando a reações contrárias, essas sim, estranhas ao processo democrático. Há muitas tentativas para “regular” a liberdade de expressão na internet em nome da lei e da ordem, como se numa democracia isso fosse fácil.

É lugar-comum definir a democracia como a busca do bem comum, a igualdade econômica, política, social, etc, mas não pode existir democracia sem a controvérsia. No entanto, há uma nova estratégia de sobrevivência dos grupos afetados em suas instâncias de poder ou no conforto de seus lares, que confunde ou procura confundir a controvérsia com a intolerância.

Muitos pensaram que a guerra de notícias e denúncias se encerraria após as eleições. A classe política e fazedores de opinião tentam “regular” e ridicularizar as manifestações e parecem acuados por processos jurídicos e quedas de popularidade.

Parte da própria população parece deslocada nas redes sociais insistindo em postar matérias sobre saúde, animais, natureza e demais preferências pessoais, também acuadas pela insistência de temas políticos. Não estou fazendo nenhum juízo de valor contra tais matérias, ou privilegiando outras, mas é público e notório o quanto tais pessoas estão desconfortáveis e até irritadas com o contínuo interesse de seus círculos sociais pelos temas filosóficos, políticos e econômicos.

Há, sem dúvida, uma guerra semântica que procura subjugar a controvérsia e o debate como se estivéssemos ameaçados pelo populismo fascista. Essa estratégia gramsciana, tão bem conhecida por acadêmicos e intelectuais, está sendo desmascarada e se popularizando também pelas redes sociais e isso é inusitado. A insistência em tais temas nas redes sociais nos dá a sensação de que a “caixa de Pandora” foi aberta para sempre. Quem viver verá.

Pode parecer óbvio desvendar a contradição, por exemplo, que há no discurso político que defende a tolerância e o diálogo com quem não é tolerante e pretende eliminar quem pensa diferente. Esse é um dos maiores dramas enfrentados na Europa. A própria ex-presidente, Dilma Rousseff, em 2014, na ONU, numa entrevista, sugeriu que “o diálogo era o caminho para enfrentar o Estado Islâmico”, enquanto este decapitava e empalava na Síria e ainda hoje mata cristãos e quem não se submeter à fé islâmica. Mas o óbvio não é tão simples.

Muitas das reflexões que assistimos no Youtube ou no Facebook foram elaboradas há décadas por intelectuais como José Osvaldo de Meira Penna, Roberto Campos e Olavo de Carvalho. A contribuição desses filósofos vai muito além da política ou da economia e já despontam no imaginário brasileiro como herois nacionais. E nada mais perigoso, para projetos coletivistas, que o valor dos indivíduos. Por isso assistimos, também pelas redes sociais, campanhas sórdidas de assassinato de reputação contra Olavo de Carvalho. Essa estratégia é antiga na guerra cultural.

A chamada “onda conservadora” me parece ser justamente uma tomada de consciência política, ainda que relativa e provisória, por parte da população, abrangendo várias camadas sociais, que vai além do partidarismo, discutindo temas centrais da cultura e que os afetam diretamente. Está se desvendando com mais ou menos reflexão e análise, a lógica de dominação e controle por trás de agendas políticas e culturais, mascaradas por discursos humanistas.

As redes sociais não dizem nada do atual fenômeno se procurássemos explicações unicamente em sua capacidade tecnológica de disseminar ideias sem levar em conta quais são essas ideias e o contexto histórico que as suportam.

As críticas à “onda conservadora” brasileira não partem só da esquerda, mas, como não poderia deixar de ser, do próprio grupo. Há que se criticar sempre a si mesmo. Toda a Tradição, desde Sócrates, o exige, e jamais poderíamos pensar que podemos gozar das benesses da modernidade tão somente mudando o governo e liberando os preços. Neste sentido, tanto os expoentes da esquerda quanto os da direita sabem que a eficiência econômica é um tema importante mas provisório. A unidade de um povo, o espírito nacional, toda uma Tradição de valores, eis o é que é fundamental.


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Muito fora da curva

O Programa Fora da Curva,  apresentado pela jornalista Maria Eduarda Rocha, que vai ao ar diariamente pela Rádio Universitária e por streaming (facebook.com/programaforadacurva), discutiu hoje, 9 de novembro de 2017, estratégias contra o totalitarismo neofascista da extrema-direita, homofóbica, misógina, racista e tutti quanti no Brasil. Foi uma aula magna da intelligentsia da esquerda brasileira.
Tanto a jornalista, que comanda o programa, quantos os entrevistados, são acadêmicos que se revesaram numa análise caricatural e ideológica da realidade política brasileira.
Adriana Santana, doutora e mestre em Comunicação, professora do Departamento de Comunicação Social e coordenadora do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco é a grande tutora desse programa, assim como todo o Departamento de Comunicação da UFPE. Seus títulos ficaram muito evidentes tanto pela hegemonia da pauta e seus convidados, quanto pelas conclusões e sínteses dos depoimentos. A condução da jornalista foi um escárnio, para dizer o mínimo, pois sua impostura abusa de um órgão público, a Rádio Universitária, ao assumir abertamente uma posição político-ideológica e beligerante. Ao contrário das teses acadêmicas desse departamento, não houve o mínimo de dados ou relatórios necessários para fundamentar as conclusões e preconceitos contra candidatos e movimentos sociais contrários à análise política que defenderam.
O professor Artur Perrusi, doutor em sociologia (UFPE e UFPB) não vê no país nenhuma agressão ou ódio da esquerda e sim da direita. O atentado contra a exibição do filme “O Jardim das Aflições”, do Josias Teófilo, na UFPE, foi citado como um exemplo do ódio da direita contra a pobre e indefesa esquerda, mesmo reconhecendo que quem sangrou no final das contas foi um dos participantes do evento que, vale ressaltar, com bravura, procurou defender o público que queria assistir ao filme, incluindo mães e filhos, admiradores do Olavo de Carvalho, o filósofo tão odiado quanto temido pela esquerda.
Todo o depoimento do professor Artur foi uma pregação, muito comum em coroinhas ateus, de vitimização da esquerda. Ele afirma: “não dá pra comparar a virulência discursiva e prática de um Bolsonaro com a de Lula” (…) “O ódio tem um só lado e é na extrema direita”.

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É russo!

O centenário da Revolução Russa reascendeu a chama de seus defensores, em todas as academias mundo à fora, menos por seus resultados intelectuais e científicos, que por sua vitoriosa propaganda.

Foi uma revolução ateia num dos países mais religioso do mundo. Sem dúvida que é um grande episódio da história da humanidade. No entanto, o espírito revolucionário sempre foi contrário à verdadeira espiritualidade. A própria Revolução Francesa já tinha destruído igrejas e assassinado padres alguns séculos atrás. Mas, sem dúvida, há características marcantes na revolução russa, e o são tanto quanto o são diabólicas, ou, para evitar um vocabulário um tanto religioso, desumanas.

Foi uma revolução operária num país eminentemente de camponeses; uma revolução socialista num país onde a grande aspiração era a propriedade individual; uma revolução de intelectuais num país que tinha a maior taxa de analfabetismo do mundo. Claro que os Romanovs não tinham vencido um certo feudalismo, mas a revolução de 1917 aprofundou a escravidão desde um estágio material ao mais íntimo das relações humanas e globalizou a revolução.

“Os proletários nada têm de seu a salvaguardar; sua missão é destruir todas as garantias e segurança da propriedade privada até aqui existentes.” 

Trechos do Manifesto Comunista

A Rússia era o país mais conservador numa Europa revolucionária. Era uma espécie de baluarte da reação contra uma Alemanha e França revolucionárias. Esse baluarte se desfez com a revolução de 1917.

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Uma santa inquisição

Ângelo Monteiro é um poeta num grau de excelência que só é percebido por quem não foge, não se esconde da tragédia e da dor da existência humana. Eu conheci Ângelo como professor, depois amigo e só depois como poeta. Na verdade o poeta ainda é um grande e adorável desconhecido. Há um senso comum em sua fortuna crítica que o classifica como um poeta místico ou religioso, mas essa é uma classificação tão profunda que é quase muda, deixando-nos sempre inquietos sobre a interpretação de seus poemas. A última edição, belíssima por sinal, da obra “o inquisidor e as lições de passagem”, pela CEPE Editora, me fez reler poemas que me surpreenderam ainda mais sobre sua verve artística, sobre sua intimidade com a tradição iniciática e, à semelhança de um Dante, nos leva a infernos e purgatórios, mas com uma cruel solidão. Seu Virgílio parece ser essa solidão, cuja sabedoria é uma cornucópia de sentimentos gritantes.

Muito já se escreveu sobre sua rítmica e como não sou um crítico literário me julgo incapaz de identificar e apreciar, mas não de sentir. O ritmo de caráter heroico de seus poemas possue uma força inegável e disputa com a mensagem a atenção do leitor. É uma estrutura encantatória.

Os poemas são muito bem trabalhados e de um nível intelectual que, parodiando Nietzsche, é “para todos e para ninguém”. É ainda mais difícil imaginar sua compreensão nos dias atuais onde gritos e sussurros substituíram a meditação e a reflexão, onde bandos naufragam suas frustrações e uma agenda progressista galopa contra toda uma tradição espiritual que não só fundou nossa civilização, mas permanece viva em sua misericórdia, sem a qual estamos todos mortos e à merce de um niilismo terrível.

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Todos somos reféns

A polêmica em torno da exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, que estava em cartaz no Santander Cultural no Rio Grande do Sul, encerrada antes do prazo, após forte reação de parte da sociedade brasileira nas ruas, mas principalmente através das redes sociais, é um capítulo novo e interessante, mas que ultrapassa o já consolidado embate político entre coxinhas e mortadelas. A corrupção política foi substituída por algo mais denso e fundamental. Não deixa de ser um alívio ver que deixamos a política nas mãos da polícia e passamos a discutir assuntos mais substanciais.

Essa é mais uma dentre tantas outras questões a se discutir nas redes sociais, a maior ágora de todos os tempos. Peço até desculpas aos gregos pelo termo, pois a discussão numa ágora, a praça pública na Grécia Antiga, era fundamental para a democracia grega, mas pressupunha um certo nível intelectual dos cidadãos. O mesmo não se dá nessas discussões virtuais onde todos os elementos estão sob suspeita: a censura ideológica crescente pelos proprietários dos canais de comunicação, a formação intelectual dos interlocutores e a cultura onde todos nós estamos mergulhados, cuja hegemonia de pensamento, também crescente, do politicamente correto, do relativismo generalizado e de ressentimentos estrategicamente cultuados por agentes sociais e seus organismos, deixa tudo muito confuso e de difícil compreensão.

Não pretendo aqui analisar esse emaranhado, mas esse episódio específico, pois acredito ser emblemático para tantas outras polêmicas que se desenvolvem nessa praça.

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Documentário ‘Jardim das Aflições’ é fiel a Olavo de Carvalho e suas ideias

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Estava ansioso e, confesso, temeroso por assistir ao filme ‘O Jardim das Aflições’, de Josias Teófilo. Conhecia a obra que o inspirara e guardava uma certa convicção de que qualquer pretensão de adaptá-la ao cinema, por mais erudição que se tivesse, seria um fracasso. Mas, graças a Deus, o documentário foi fiel ao filósofo e suas ideias, mantendo-se despretensioso, com um olhar simples e direto à vida cotidiana, aos sentimentos e às ideias de Olavo de Carvalho.

Logo no início, enquanto Olavo comenta sobre a gênese de seu livro, o filme escancara símbolos tão contundentes que não acredito que tenham sido propositais. Quando o são é quase sempre de um prosaísmo grotesco. Eis que surge uma penteadeira, símbolo narcísico por excelência e tão próprio às ideologias subjetivistas, um dos alvos da crítica de Olavo de Carvalho. No entanto, o espelho também é um convite para o espectador olhar para si mesmo. Essa dubiedade do símbolo é prova maior de seu alcance e a dialética um método que Olavo domina com maestria. Esse olhar para si mesmo, como pedra angular da vida de um filósofo, está na base de toda a Tradição Espiritual e Olavo tem aqui também uma grande contribuição.

Sobre uma mesa muito simples, anuncia-se uma mesa muito maior, a do prestidigitador, onde encontramos os quatro elementos: o fogo, representado pelo cinzeiro, o ar representado por um bastão, a água representada pelo vaso e a terra representada por uma moeda. O mago está na própria narrativa.

O filme começa muito bem.

O livro, mesmo com rico vocabulário, com uma narrativa clássica e trazendo ideias de uma complexidade quase vertiginosa, pode ser compreendido por quem tem uma formação relativamente básica. E por isso também é uma obra prima. O filme o apresenta com uma narrativa sóbria, é entrevistado pelo Wagner Carelli, um dos raros editores cultos do país e deixa o filósofo muito à vontade em sua intimidade com as ideias, assim como com sua família. A estrutura musical do livro é contemplada pela escolha da Sinfonia de Jan Sibelius e a intimidade familiar, em meio ao jardim da Virgínia, pelo acordeon encantador de Vladislav Cojoru.

A transformação das delícias, propostas pelas ideologias ditas humanistas, em aflições é fartamente documentado no livro e o abandono do real é o alvo da crítica do filósofo. O filme nos convida a refletir sobre o papel da filosofia, não apenas documentando um discurso, mas nos convidando a uma certa intimidade com a simplicidade do autor. O filme não acompanha a trajetória da obra, como foi vivenciada pelo autor, ou seja, não nos leva à perturbação do filósofo ao se deparar com o famigerado seminário de ética promovido pela esquerda brasileira em 1993. O filme, ao contrário do desconforto criativo sofrido pelo Olavo, nos leva a um homem que já conseguiu escapar desse canto de sereias e, qual Ulisses, nos conduz de volta para casa, ansioso por sua amada.

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