Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

Category: Astrologia

Em chamas

Dia 15 de abril de 2019, Paris e Jerusalém, Notre Dame e Haram ash-Sharif, queimam no mesmo momento.
Aparentemente foram acidentes, em ambos os casos. E mesmo que não tenham sido, divulgar um possível atentado pode ser ainda mais trágico, conforme

Mapa Celeste para Paris em 15 de abril de 2019, às 18:30h

as estratégias do poder vigente.
Há muito o que se dizer sobre o desinteresse religioso ocidental que transforma nossas catedrais em museus, ou em cinzas, ou as reconstrói se forem centros turísticos – 13 milhões (que número) de turistas não é pouca coisa para a economia.
Notre Dame não sofre seu primeiro golpe e sabemos que a “revolução”, tão cantada, ainda não terminou para boa parte dos humanistas e tecnocratas que vêem no passado um empecilho. São todos pobres diabos que não percebem que essa revolução contínua já procura se livrar do próprio humanismo, abrindo o caminho não só para outras crenças “medievais”, mas para uma robótica cega ao infinito.


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Direita, volver!

O povo parece ter acordado, como agente político, quando assistimos a manifestações populares em todos os continentes, contra vários tipos de regimes, movidos com certa espontaneidade, numa certa autonomia de lideranças político-partidárias, graças também ao fenômeno das redes sociais. Estaríamos no início de uma “democracia real” em oposição à democracia liberal? Essa polêmica está no centro das discussões acadêmicas e partidos políticos.

Entender esse fenômeno como um mero produto das mídias digitais é um estratagema sociológico que não apenas reduz a compreensão do fenômeno como também mascara uma manipulação reducionista, na tentativa de devolver as massas às suas lideranças tradicionais, políticas ou culturais. O controle das mídias digitais, seja por decisão autocrática de estados totalitários, seja pela ameaça legislativa à liberdade de expressão ao pretender o controle  de “fake news”, é justamente uma reação das instituições que perdem o controle da narrativa dos fatos e das decisões políticas.

Claro que essa tensão é consequência de múltiplas crises: a crise no emprego devido a revolução tecnológica, o choque civilizacional cuja crise migratória é um de seus capítulos, a desigualdade social, etc. O que parece unificar ou potencializar o descontentamento geral das populações, ainda que de maneira incipiente e amorfa, são, sem dúvida, as mídias digitais, mas elas, por si só, não explicam os motivos e os contextos sociais e históricos dessa revolta que se avoluma, dessas “primaveras” culturais e sociais.

Christopher Lasch em The Revolt of the Elites and the Betrayal of Democracy, desde a década de 1990, já apontava para uma tensão entre as elites intelectuais, políticas e artísticas, e o senso comum do homem médio. Esse homem comum, que estaria representado pelos valores tradicionais e espirituais que fundaram a civilização ocidental, estaria se rebelando contra toda uma agenda de engenharia social que contraria suas necessidades e valores mais básicos. A crítica social desse intelectual apontou para a decadência das liberdades das famílias e do homem médio, cada vez mais longe do homem cosmopolita, desenraizado e narcisista.

Mas quem é o povo? Ideólogos à direita e à esquerda disputam sua paternidade ao longo da história. Há preocupações legítimas em ambos os lados do espectro político, mas é inegável que as ideologias de esquerda historicamente são as que mais traem suas intensões humanistas levando o povo a níveis sociais e espirituais mais degradantes. Essa deficiência das ideologias de esquerda não se resume à incapacidade de suas soluções econômicas diante da complexidade da economia. A crise generalizada a que me refiro vai além da questão econômica.
Os inimigos do povo se encontram em ambos os espectros e tanto a decadência promovida pela ineficiência do socialismo quanto o progresso promovido pela eficiência do capitalismo comungam da ideia de uma engenharia social cujo avanço tecnológico tornará as próximas governanças num poder totalitário inimaginável. Esse é o núcleo da temática conservadora que incomoda à esquerda e à direita, ainda que seja mais próxima da liberdade econômica que a direita defende.
O progresso tecnológico, cuja miniaturização traz o controle e a monitoração cada vez mais próximo ao indivíduo, aumenta o poder de controle dos estados modernos como nunca na história. O caráter escatológico dessa crise e o que podemos fazer contra esse Leviatã já está anunciado desde as grandes tradições espirituais, mas isso exige mais consciência e responsabilidade de cada indivíduo. Essa pauta conservadora é o mais difícil de todos os desafios, pois como reascender o espírito empreendedor numa população aliciada pelo paternalismo estatal? Como reascender a responsabilidade moral numa população desleixada pelo hedonismo moderno? Como reascender a busca pela verdade numa população dominada pelo relativismo generalizado?

A unidade do que seja um povo, a consciência dessa unidade e seu conjunto de valores, por mais plural que seja, deve ser resgatada. Em nome dessa unidade, que não se confunde, com as ideologias coletivistas tirânicas do século XX, surgem líderes populistas ocidentais que travam uma luta quase inglória em várias frentes. Esses líderes não são plenamente conscientes da complexidade desses desafios, mas encarnam essa demanda histórica. Eles lutam para soerguer seus países do atraso econômico e social; lutam contra a perda da soberania pelo globalismo e lutam contra o espírito revolucionário que é tanto político quanto religioso.

A esquerda busca a unidade dos povos, mas a unidade que busca é a de uma massa de manobra a serviço de uma estrutura de poder ainda mais totalitária que todos os poderes que dizem combater. A fraternidade de esquerda é policialesca e sua igualdade não é a de oportunidades, mas a de resultados, forçando artificial e tragicamente a economia e a natureza humana. A direita, por outro lado, se colocou até então como uma mera reação ao subdesenvolvimento promovido pela esquerda e desdenhou, com raras exceções, os aspectos ideológicos. Esse erro fundamental fez da direita um mero mecanismo de correção econômica a ser espoliado pela esquerda futura. Esse mecanismo desgastou-se e uma certa urgência ideológica anima os novos movimentos populares, multiplicados também graças à tecnologia das mídias digitais.

Desdenhar esses aspectos ideológicos, pois, não é apenas pedantismo de uma isenção ignorante, mas um tipo de conivência perigosa.


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Em chamas

Dia 15 de abril de 2019, Paris e Jerusalém, Notre Dame e Haram ash-Sharif, queimam no mesmo momento.
Aparentemente foram acidentes, em ambos os casos. E mesmo que não tenham sido, divulgar um possível atentado pode ser ainda mais trágico, conforme

Mapa Celeste para Paris em 15 de abril de 2019, às 18:30h

as estratégias do poder vigente.
Há muito o que se dizer sobre o desinteresse religioso ocidental que transforma nossas catedrais em museus, ou em cinzas, ou as reconstrói se forem centros turísticos – 13 milhões (que número) de turistas não é pouca coisa para a economia.
Notre Dame não sofre seu primeiro golpe e sabemos que a “revolução”, tão cantada, ainda não terminou para boa parte dos humanistas e tecnocratas que vêem no passado um empecilho. São todos pobres diabos que não percebem que essa revolução contínua já procura se livrar do próprio humanismo, abrindo o caminho não só para outras crenças “medievais”, mas para uma robótica cega ao infinito.


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Um negócio da China

A grande treta do momento é a confusão gerada pela viagem que deputados recém-eleitos fizeram à China e a suspeita de espionagem através de um software de reconhecimento facial. A mídia em geral critica o filósofo Olavo de Carvalho por uma suposta influência ideológica no governo. Há muita coisa em pauta, muito xingamento, mas as discussões levantadas pelo Olavo de Carvalho são muito importantes e um possível impacto na balança comercial não deveria encerrar tais discussões, que estão apenas começando num Brasil que se reconstrói com independência e coragem. Além do que a questão da espionagem tecnológica não é nenhuma novidade no cenário internacional. Desdenhar o avançado sistema de controle da população pelo governo chinês é no mínimo ingenuidade e encerrar essa discussão com a pecha de ideológica é de uma estupidez perigosa.

A China avança ferozmente seus sistemas de controle centralizado e o fato de sermos anões na geopolítica internacional não deveria nos eximir moral e estrategicamente. Claro que princípios, moralidade, valores não se conjugam sem um pragmatismo inteligente, mas não é essa a discussão que observamos na mídia e em alguns analistas de política e relações internacionais. Todos se apressam em defender uma análise puramente mercadológica e usam o Olavo de Carvalho como judas, como sempre, de forma covarde, disfarçada e ignorante. O fato de termos um governo dito liberal na economia nos condenaria a uma lógica puramente mercadológica? A guerra cultural que enfrentamos, e não apenas no Brasil, pode prescindir de uma análise sobre o poder para além do economicismo?

Os deputados que foram à China estão no meio de uma discussão que não compreendem e reagiram com  desespero e despreparo. Não podem opinar sobre o assunto, que na verdade são vários e complexos, e apenas defendem sua dignidade com xingamentos e afetações de honra.

O articulista Luciano Ayan comparou o Brasil com a Libéria dos anos 80 quando, ensaiando uma briguinha com países comunistas, se aproximou dos EUA que logo depois o abandonou, escondendo o fato de que o então presidente, Samuel Kanyon Doe, implantou uma ditadura baseada na etnicidade e reprimiu a oposição política. Como comparar o atual alinhamento político de Bolsonaro  com os Estados Unidos com o de Samuel Kanyon Doe?

A jornalista Vera Magalhães rebaixa ainda mais a crítica ao analisar toda a celeuma como uma mera interferência ideológica de um professor “online”.  A jornalista engrossa o coro dos detratores do Olavo de Carvalho, com igual empáfia e ignorância, ao identificar a “influência olavista” como uma mera indicação de cargos, quando devemos também ao trabalho pedagógico de décadas desse filósofo a possibilidade mesma da alteração de poder real, além das siglas partidárias, e a reinserção do Brasil nas grandes discussões da humanidade, estejamos ou não a altura delas. A análise segue sem identificar os problemas reais das relações internacionais que foram apresentados pelo Olavo em muitas de suas aulas e livros, principalmente na obra “Os Eua e a Nova Ordem Mundial” e tenta desmerecer a análise filosófica diminuindo a importância dos problemas discutidos, como se qualificar de “ideológico” fosse suficiente.

Muito ao contrário do que pretendem, a reação da mídia aumentou ainda mais o interesse pelo Olavo de Carvalho que, desde a eleição, triplicou a venda de seus livros, o que é um “negócio da China”.

 


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