Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

Category: Literatura

Uma santa inquisição

Ângelo Monteiro é um poeta num grau de excelência que só é percebido por quem não foge, não se esconde da tragédia e da dor da existência humana. Eu conheci Ângelo como professor, depois amigo e só depois como poeta. Na verdade o poeta ainda é um grande e adorável desconhecido. Há um senso comum em sua fortuna crítica que o classifica como um poeta místico ou religioso, mas essa é uma classificação tão profunda que é quase muda, deixando-nos sempre inquietos sobre a interpretação de seus poemas. A última edição, belíssima por sinal, da obra “o inquisidor e as lições de passagem”, pela CEPE Editora, me fez reler poemas que me surpreenderam ainda mais sobre sua verve artística, sobre sua intimidade com a tradição iniciática e, à semelhança de um Dante, nos leva a infernos e purgatórios, mas com uma cruel solidão. Seu Virgílio parece ser essa solidão, cuja sabedoria é uma cornucópia de sentimentos gritantes.

Muito já se escreveu sobre sua rítmica e como não sou um crítico literário me julgo incapaz de identificar e apreciar, mas não de sentir. O ritmo de caráter heroico de seus poemas possue uma força inegável e disputa com a mensagem a atenção do leitor. É uma estrutura encantatória.

Os poemas são muito bem trabalhados e de um nível intelectual que, parodiando Nietzsche, é “para todos e para ninguém”. É ainda mais difícil imaginar sua compreensão nos dias atuais onde gritos e sussurros substituíram a meditação e a reflexão, onde bandos naufragam suas frustrações e uma agenda progressista galopa contra toda uma tradição espiritual que não só fundou nossa civilização, mas permanece viva em sua misericórdia, sem a qual estamos todos mortos e à merce de um niilismo terrível.

Leia mais


Lista dos artigos

É russo!

O centenário da Revolução Russa reascendeu a chama de seus defensores, em todas as academias mundo à fora, menos por seus resultados intelectuais e científicos, que por sua vitoriosa propaganda.

Foi uma revolução ateia num dos países mais religioso do mundo. Sem dúvida que é um grande episódio da história da humanidade. No entanto, o espírito revolucionário sempre foi contrário à verdadeira espiritualidade. A própria Revolução Francesa já tinha destruído igrejas e assassinado padres alguns séculos atrás. Mas, sem dúvida, há características marcantes na revolução russa, e o são tanto quanto o são diabólicas, ou, para evitar um vocabulário um tanto religioso, desumanas.

Foi uma revolução operária num país eminentemente de camponeses; uma revolução socialista num país onde a grande aspiração era a propriedade individual; uma revolução de intelectuais num país que tinha a maior taxa de analfabetismo do mundo. Claro que os Romanovs não tinham vencido um certo feudalismo, mas a revolução de 1917 aprofundou a escravidão desde um estágio material ao mais íntimo das relações humanas e globalizou a revolução.

“Os proletários nada têm de seu a salvaguardar; sua missão é destruir todas as garantias e segurança da propriedade privada até aqui existentes.” 

Trechos do Manifesto Comunista

A Rússia era o país mais conservador numa Europa revolucionária. Era uma espécie de baluarte da reação contra uma Alemanha e França revolucionárias. Esse baluarte se desfez com a revolução de 1917.

Leia mais


Lista dos artigos

Uma santa inquisição

Ângelo Monteiro é um poeta num grau de excelência que só é percebido por quem não foge, não se esconde da tragédia e da dor da existência humana. Eu conheci Ângelo como professor, depois amigo e só depois como poeta. Na verdade o poeta ainda é um grande e adorável desconhecido. Há um senso comum em sua fortuna crítica que o classifica como um poeta místico ou religioso, mas essa é uma classificação tão profunda que é quase muda, deixando-nos sempre inquietos sobre a interpretação de seus poemas. A última edição, belíssima por sinal, da obra “o inquisidor e as lições de passagem”, pela CEPE Editora, me fez reler poemas que me surpreenderam ainda mais sobre sua verve artística, sobre sua intimidade com a tradição iniciática e, à semelhança de um Dante, nos leva a infernos e purgatórios, mas com uma cruel solidão. Seu Virgílio parece ser essa solidão, cuja sabedoria é uma cornucópia de sentimentos gritantes.

Muito já se escreveu sobre sua rítmica e como não sou um crítico literário me julgo incapaz de identificar e apreciar, mas não de sentir. O ritmo de caráter heroico de seus poemas possue uma força inegável e disputa com a mensagem a atenção do leitor. É uma estrutura encantatória.

Os poemas são muito bem trabalhados e de um nível intelectual que, parodiando Nietzsche, é “para todos e para ninguém”. É ainda mais difícil imaginar sua compreensão nos dias atuais onde gritos e sussurros substituíram a meditação e a reflexão, onde bandos naufragam suas frustrações e uma agenda progressista galopa contra toda uma tradição espiritual que não só fundou nossa civilização, mas permanece viva em sua misericórdia, sem a qual estamos todos mortos e à merce de um niilismo terrível.

Leia mais


Lista dos artigos

Todos somos reféns

A polêmica em torno da exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, que estava em cartaz no Santander Cultural no Rio Grande do Sul, encerrada antes do prazo, após forte reação de parte da sociedade brasileira nas ruas, mas principalmente através das redes sociais, é um capítulo novo e interessante, mas que ultrapassa o já consolidado embate político entre coxinhas e mortadelas. A corrupção política foi substituída por algo mais denso e fundamental. Não deixa de ser um alívio ver que deixamos a política nas mãos da polícia e passamos a discutir assuntos mais substanciais.

Essa é mais uma dentre tantas outras questões a se discutir nas redes sociais, a maior ágora de todos os tempos. Peço até desculpas aos gregos pelo termo, pois a discussão numa ágora, a praça pública na Grécia Antiga, era fundamental para a democracia grega, mas pressupunha um certo nível intelectual dos cidadãos. O mesmo não se dá nessas discussões virtuais onde todos os elementos estão sob suspeita: a censura ideológica crescente pelos proprietários dos canais de comunicação, a formação intelectual dos interlocutores e a cultura onde todos nós estamos mergulhados, cuja hegemonia de pensamento, também crescente, do politicamente correto, do relativismo generalizado e de ressentimentos estrategicamente cultuados por agentes sociais e seus organismos, deixa tudo muito confuso e de difícil compreensão.

Não pretendo aqui analisar esse emaranhado, mas esse episódio específico, pois acredito ser emblemático para tantas outras polêmicas que se desenvolvem nessa praça.

Leia mais


Lista dos artigos

Documentário ‘Jardim das Aflições’ é fiel a Olavo de Carvalho e suas ideias

16113265_10212310712905495_5295321317592586716_o

Estava ansioso e, confesso, temeroso por assistir ao filme ‘O Jardim das Aflições’, de Josias Teófilo. Conhecia a obra que o inspirara e guardava uma certa convicção de que qualquer pretensão de adaptá-la ao cinema, por mais erudição que se tivesse, seria um fracasso. Mas, graças a Deus, o documentário foi fiel ao filósofo e suas ideias, mantendo-se despretensioso, com um olhar simples e direto à vida cotidiana, aos sentimentos e às ideias de Olavo de Carvalho.

Logo no início, enquanto Olavo comenta sobre a gênese de seu livro, o filme escancara símbolos tão contundentes que não acredito que tenham sido propositais. Quando o são é quase sempre de um prosaísmo grotesco. Eis que surge uma penteadeira, símbolo narcísico por excelência e tão próprio às ideologias subjetivistas, um dos alvos da crítica de Olavo de Carvalho. No entanto, o espelho também é um convite para o espectador olhar para si mesmo. Essa dubiedade do símbolo é prova maior de seu alcance e a dialética um método que Olavo domina com maestria. Esse olhar para si mesmo, como pedra angular da vida de um filósofo, está na base de toda a Tradição Espiritual e Olavo tem aqui também uma grande contribuição.

Sobre uma mesa muito simples, anuncia-se uma mesa muito maior, a do prestidigitador, onde encontramos os quatro elementos: o fogo, representado pelo cinzeiro, o ar representado por um bastão, a água representada pelo vaso e a terra representada por uma moeda. O mago está na própria narrativa.

O filme começa muito bem.

O livro, mesmo com rico vocabulário, com uma narrativa clássica e trazendo ideias de uma complexidade quase vertiginosa, pode ser compreendido por quem tem uma formação relativamente básica. E por isso também é uma obra prima. O filme o apresenta com uma narrativa sóbria, é entrevistado pelo Wagner Carelli, um dos raros editores cultos do país e deixa o filósofo muito à vontade em sua intimidade com as ideias, assim como com sua família. A estrutura musical do livro é contemplada pela escolha da Sinfonia de Jan Sibelius e a intimidade familiar, em meio ao jardim da Virgínia, pelo acordeon encantador de Vladislav Cojoru.

A transformação das delícias, propostas pelas ideologias ditas humanistas, em aflições é fartamente documentado no livro e o abandono do real é o alvo da crítica do filósofo. O filme nos convida a refletir sobre o papel da filosofia, não apenas documentando um discurso, mas nos convidando a uma certa intimidade com a simplicidade do autor. O filme não acompanha a trajetória da obra, como foi vivenciada pelo autor, ou seja, não nos leva à perturbação do filósofo ao se deparar com o famigerado seminário de ética promovido pela esquerda brasileira em 1993. O filme, ao contrário do desconforto criativo sofrido pelo Olavo, nos leva a um homem que já conseguiu escapar desse canto de sereias e, qual Ulisses, nos conduz de volta para casa, ansioso por sua amada.

Leia mais


Lista dos artigos