Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

Obrigado Bento XVI

bento-xvi-com-evangelhoBento XVI, nosso Papa emérito, fez aniversário no último dia 16 de abril.  Infelizmente a balbúrdia e decadência generalizada em nosso país ignorou tão gloriosa data. Na verdade, apenas uma estranha crítica ao seu legado apareceu nas redes sociais, e, para minha surpresa, de uma editora e seu grupo de religiosos ditos tradicionalistas. Eles criticavam Bento XVI, ironizando sua grandeza, chamando-o de o grande Papa das Sinagogas. Perguntaram-me por que o Papa Bento XVI era Grande.  Agradeço a provocação da editora Permanência.

A obra de Bento XVI é muito vasta, seja como teólogo ou como servo da Igreja. A sua profunda cultura filosófica e teológica ainda pode nos ajudar contra o império do relativismo.  Mas a revolução cultural em curso é muito grande, ao ponto de levar até membros da comunidade cristã à cegueira quanto ao legado de um grande devoto de Deus só por sua aproximação com as sinagogas.

Embora seja conhecido por sua enorme erudição, sua filosofia não sofre a ausência do espírito, fundamental para que a palavra possa salvar ao invés de matar. As críticas que procuram reduzir sua importância, dizendo ser apenas um intelectual, são destituídas elas próprias de inteligibilidade. Fé e Razão não são antagônicos e desfazer essa falsa dicotomia faz parte da tradição do próprio cristianismo. A contribuição de Bento XVI é um grande exemplo do quanto sua intelectualidade é plena do espírito vivo dAquele que nos salva e nos converte. A conversão do ateu, Megan Hodder, ao cristianismo, a partir da leitura das obras de Bento XVI é um comovente exemplo:

“Comecei lendo o discurso do Papa Bento XVI em Ratisbona, consciente de que ele havia gerado controvérsia na ocasião e era uma espécie de tentativa — fútil, é claro — de reconciliar fé e razão. Também li o menor livro dele que pude encontrar, On Conscience. Eu esperava — e desejava — achar alguma intolerância e irracionalidade que pudesse justificar meu ateísmo. Ao contrário, fui colocada diante de um Deus que era o Logos; não um ditador sobrenatural esmagando a razão humana, mas o parâmetro auto-expressivo de bondade e verdade objetiva pelo qual se orienta e se completa a nossa razão, um ente que não controla roboticamente a nossa moralidade, mas, ao contrário, é a fonte de nossa capacidade de percepção moral, uma percepção que requer desenvolvimento e formação por meio do exercício consciente do livre arbítrio.”

Em sua primeira encíclica, Caritas in Veritate,  já dizia:

“Cada um encontra o bem próprio, aderindo ao projeto que Deus tem para ele a fim de o realizar plenamente: com efeito, é em tal projeto que encontra a verdade sobre si mesmo e, aderindo a ela, torna-se livre (cf. Jo 8, 32). Por isso, defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e imprescindíveis de caridade”

O centro de sua pregação é a Caridade e Bento XVI nos lembra que, assim como Cristo, a verdadeira caridade, expressão máximo do amor, se realiza na própria vida, na doação de si para o próximo. Essa reflexão deveria estar presente em todos os grande desafios enfrentados.

Ele próprio o fez no diálogo inter-religioso de seus 8 anos de pontificado, como ele próprio dizia,  segundo “o autêntico espírito de Assis”.

Em março de 2011, encontrou-se com Chrysostomos II, arcebispo ortodoxo de Nova Justiniana e de todo o Chipre, quando discutiram sobre a situação dos cristãos no Oriente Médio e a liberdade religiosa na Ilha de Chipre. Em janeiro de 2012, encontrou-se com uma delegação ecumênica da Igreja Luterana da Finlândia. No mesmo ano, em maio, recebeu judeus da América Latina onde pronunciou: “Ao considerar os progressos adquiridos nos últimos 50 anos de relações judaico-católicas em todo o mundo, não podemos deixar de agradecer ao Todo-Poderoso por esse sinal evidente de Sua bondade e providência”. Por tal encontro o Papa foi muito criticado por grupos ditos tradicionalistas, engrossando ainda mais as fileiras do antissionismo, tão característico dos inimigos de nossa civilização. Esquecem que tal aproximação foi inaugurada por João Paulo II, em 1986,  quando visitou a Sinagoga de Roma.

Em sua visita ao Líbano como “peregrino da paz”, Bento XVI  destacou: “A convivência feliz de todos os libaneses deve demonstrar a todo o Oriente Médio e ao resto do mundo que, dentro de uma nação, pode haver colaboração entre as diversas Igrejas”. Acusar o Papa por aproximar-se das demais religiões justamente quando só a união das lideranças espirituais pode nos livrar do grande mal do século, é querer que a Igreja Católica se entrincheire em um barroco melancólico e covarde,  abandonando assim o mundo, o que não é nada cristão.

Não bastasse suas encíclicas e demonstrações de amor, Bento XVI nos brindou com um discurso que é um verdadeiro antídoto contra a nefasta filosofia que, qual serpente, rasteja e envenena toda a modernidade. No famoso discurso de 22 de setembro de 2011, no Palácio Reichstag  em Berlim,  Bento XVI demonstrou grande erudição e coragem, inaugurando uma atitude que deveria ser imitada por todos nós: pisar na cabeça da serpente, como bem disse Dom José Darci Nicioli, bispo-auxiliar de Aparecida, ao criticar o líder máximo da decadência moral do poder em nosso continente.

“A política deve ser um compromisso em prol da justiça e, assim, criar as condições de fundo para a paz. Naturalmente um político procurará o sucesso, sem o qual não poderia jamais ter a possibilidade de uma ação política efetiva; mas o sucesso há-de estar subordinado ao critério da justiça, à vontade de atuar o direito e à inteligência do direito. É que o sucesso pode tornar-se também um aliciamento, abrindo assim a estrada à falsificação do direito, à destruição da justiça.”

Nesse discurso, Bento XVI nos prepara para vencermos os legalismos destituídos de inteligência e verdade bem como o perigo do relativismo moral da cultura que nos cerca, ao tratar do problema da lei positiva e a defesa da Lei Natural. O discurso é fundamental para toda a civilização, mas é preciso destacar sua importância mais uma vez, principalmente para as mudanças que precisamos fazer em nosso país, se estivermos realmente movidos pela esperança em Deus. A classe política, intelectual e artística em nosso país, faz coro ao discurso nefasto de que não há uma verdade e de que tudo é uma construção humana. Nesse projeto recheado de apelos humanísticos, brilha uma luz luciférica, onde já se pode ver a escravidão tomando conta de nossas almas, mentes e corpos.

“A razão positivista, que se apresenta de modo exclusivista e não é capaz de perceber algo para além do que é funcional, assemelha-se aos edifícios de cimento armado sem janelas, nos quais nos damos o clima e a luz por nós mesmos e já não queremos receber estes dois elementos do amplo mundo de Deus. E no entanto não podemos iludir-nos, pois em tal mundo autoconstruído bebemos em segredo e igualmente nos “recursos” de Deus, que transformamos em produtos nossos. É preciso tornar a abrir as janelas, devemos olhar de novo a vastidão do mundo, o céu e a terra e aprender a usar tudo isto de modo justo.”

“O grande teórico do positivismo jurídico, Kelsen, em 1965 (…), abandonou o dualismo entre ser e dever ser. Antes, ele tinha dito que as normas só podem derivar da vontade. Consequentemente – acrescenta ele – a natureza só poderia conter em si mesma normas, se uma vontade tivesse colocado nela estas normas. Mas isto – diz ele – pressuporia um Deus criador, cuja vontade se inseriu na natureza. «Discutir sobre a verdade desta fé é absolutamente vão» – observa ele a tal propósito (citado segundo Waldstein, op.cit., 19). Mas sê-lo-á verdadeiramente? – apetece-me perguntar. É verdadeiramente desprovido de sentido refletir se a razão objetiva que se manifesta na natureza não pressuponha uma Razão criadora, um Creator Spiritus?”

É nesse grandioso discurso onde Bento XVI conclama a todos nós a defendermos nossa civilização, demonstrando definitivamente, que somos Jerusalém, Roma e Atenas, mas guiados pelo Espírito da Verdade, não existimos para nos isolarmos e sim para nos abraçarmos em direção ao alto.

Obrigado Bento XVI!

Leiam o discurso na íntegra no link abaixo.

 

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
Palácio Reichstag de Berlim
Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011
 

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