Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

Inteligência, Verdade e Certeza em Olavo de Carvalho

Apresentado no I Congresso Brasileiro de Humanidades
17 de junho de 2000, Vassouras -RJ

O êxtase é a plena presença do dado,

é a suprema forma de realismo,

aquela perfeita submissão do pensamento ao real.
Olavo de Carvalho

Não é fácil interpretar os textos do professor Olavo de Carvalho, não por uma dificuldade técnica ou acadêmica qualquer, mas justamente pela intimidade que ele nos proporciona com os temas. A cada parágrafo, intuições e reflexões vinham-me como fulgurações, mas logo depois, nos parágrafos seguintes, elas lá estavam tão bem declaradas que me via num misto de felicidade e temor. Felicidade pois confirmavam confortavelmente minhas intuições e temor pois nada havia mais o que dizer perante um congresso em torno de suas obras. Procurar referências históricas e etimológicas de seus conceitos seria tão pouco e tão pouco tempo eu tinha que resolvi pedir licença à poesia e tão somente demonstrar o encanto que nos proporcionam seus textos.

Esse congresso não poderia iniciar seus trabalhos com outro tema que não o ensaio “Inteligência, Verdade e Certeza”. Trata-se, com quase redundância, de um preâmbulo iniciático. Para além da elucidação dos conceitos sobre a inteligência, a verdade e a certeza, encontramos nesse ensaio a elucidação do próprio fenômeno transcendental, cujo brilho é mãe de todas as nossas ciências.

É comum aos textos de Olavo de Carvalho uma análise principial, quase que arquetípica, do sentido, dos conceitos. Nele, a busca do sentido se confunde com todas as buscas. Esse olhar holístico sobre o mundo, que a tirania do relativismo tenta destruir, é, em sua obra, meio e fim. Há musica, geometria e números em suas letras que a Pitágoras encantam. Descobri-los, comentá-los, calculá-los em outras tantas equações, creio ser a pretensão deste congresso.

Antes porém, é preciso abandonarmos, socraticamente, certezas estrangeiras. Esse é o seu convite. E ele não o faz simplesmente indicando todas as armadilhas silogísticas ou mesmo nos prevenindo da arte erística. Sua mensagem vem de mais longe; de onde sempre ecoam as mensagens eternas.

O filósofo Olavo de Carvalho não é apenas um decifrador, um calculista ou um articulista. A sua busca da verdade não se resume a um método. A verdade é, antes de ser algo a se descobrir, a realidade toda, o que inclui a própria ignorância e a própria busca. Pela dimensão metafísica da verdade anula-se, de uma vez, todas as objeções à verdade positiva. Mas, infelizmente, a evidência hoje é um privilégio de poucos e a verdade tem que se revestir de tantas falsidades quanto são os falsários.

Os adversários da verdade dizem-na impossível, e acreditam ser verdade o que dizem. Em primeiro lugar, fosse isso verdade, seria necessário admitir a existência da própria verdade. Argumentam que, sendo a verdade uma conformidade da coisa pensada com o pensamento, é desde já impossível essa conformidade, pois que nunca temos a coisa total, inteira. Essa visão explicitamente quantificada da verdade esquece que a verdade é qualidade, ou seja, não é mister que o que sabemos seja total para ser verdadeiro. A totalidade está na própria conformidade, nessa relação entre o intelecto e a realidade. Entre a falsidade e a verdade não há um terceiro termo. A falsidade é a ausência de verdade. E um conhecimento parcial sobre algo não é menos verdade, não é falso por isso. Há até os que negam o caráter qualitativo da verdade, ou seja, dessa adequação intencional entre o intelecto e a coisa. Dizem que não pode haver adequação entre um ente mental e um ente extra-mental. Mas não se trata de uma conformidade de entes no sentido físico, ou entitativa como dizia nosso Mario Ferreira dos Santos. Trata-se, obviamente, de conformidade intencional. Para pensar no fogo não preciso que minha mente esteja em chamas, de forma a derreter os miolos, mesmo porque certos problemas são mais ígneos que as próprias chamas. Há ainda os que admitem a verdade como utilidade, funcionalidade. E também os que consideram essa adequação tão somente entre a coisa e os sentidos que a apreendem. Esquecem a função sintética do intelecto, ordenadora do caos das sensações. Essa função cósmica do intelecto é justamente o que nos aponta Olavo de Carvalho.

Intelecto, segundo Aristóteles, é aquilo pelo qual a alma raciocina e compreende”. (De An.,II). “Uma espécie de virtude dianoética (hábito racional), uma faculdade de intuir os princípios das demonstrações”. Intuir também os termos últimos, ou seja, os fins aos quais a ação deve ser subordinada.

Dominando os quatro discursos aristotélicos, Olavo vai desde a poesia da dimensão metafísca da verdade, que a tudo integra, até aos enunciados apodíticos, numa lógica cuja demonstração é a cicuta que ele devolve aos atenienses. Na verdade o texto ressalta sua profunda intenção pedagógica. Sua mensagem nos diz: antes de lutarmos por certezas vamos nos preparar para tê-las.

A totalidade, a unidade do real, exigem por sua vez a integridade do sujeito. Ou seja, uma metade de mim tem apenas uma metade do mundo; sendo um comigo mesmo posso perceber a unidade do mundo, e a simultaneidade da totalidade do real revela-se. O encontro com a verdade se dá pela inteligência, e por se tratar de um fenômeno que se dá na intimidade mesma dos seres é, fundamentalmente, um fenômeno moral. A moral é a admissão da verdade. Podemos intuir, perceber, calcular a verdade e mesmo assim negá-la. A inteligência, pois, não depende apenas dos processos cognitivos, nem dos circuitos eletrônicos, com a chamada inteligência artificial, mas de uma disposição amorosa, verdadeira grandiosidade do conhecimento. Essa é uma das grandes contribuições do professor Olavo de Carvalho na elucidação do fenômeno do conhecimento. Intelecto vem de Intus legere, indicando uma leitura para dentro. S. Tomás nos diz: “O nome de Intelecto implica um certo conhecimento íntimo”. Isto é evidente ao se contrapor o intelecto aos sentidos. Ainda segundo S.Tomás: “O conhecimento sensível concerne as qualidade sensíveis externas, o conhecimento intelectivo penetra até a essência da coisa”.

“A inteligência é a relação que se estabelece entre o homem e a verdade”, diz Olavo. Afinado com as grandes tradições espirituais da humanidade, seu conceito sobre a inteligência demonstra a interioridade do fenômeno. A iluminação do ato de inteligir é, pois, espiritual. Ou seja, todo o ser participa do ato; as funções cognitivas, os sentidos humanos, a estrutura lógica, os sinais da cultura, estão simultaneamente presentes ao ato, e tentar reduzir o fenômeno da inteligência a uma de suas manifestações ou etapas é evitar sua grandiosidade, tal como um tirano mata um rei para tomar seu lugar.

Diz Olavo: “O resultado da conta de 2+2 que aparece na tela do computador é uma verdade, mas uma verdade que está no objeto e não ainda na inteligência; essa verdade está na tela como a verdadeira estrutura mineralógica de uma pedra está na pedra ou como a verdadeira fisiologia do animal está no animal: são verdades latentes, que jazem na obscuridade do mundo objetivo aguardando o instante em que se atualizarão na inteligência humana. Do mesmo modo podemos pensar uma idéia verdadeira sem nos darmos conta de que é verdadeira; neste caso, a verdade está no pensamento como a verdade da pedra está na pedra: o ato de inteligência só se cumpre no instante em que percebemos e admitimos essa verdade como verdade. A inteligência é, neste sentido, mais “interior” a nós do que o pensamento.” Essa interioridade também nos diz que o encontro com a verdade depende de um nível de intimidade do sujeito consigo próprio. Implica também que se somos passivos em relação aos objetos devemos ser ativos em relação a nós próprios. Ativos buscando aquele nível de atenção necessário para um encontro mais reto com o objeto. Telésio nos diz: “as coisas retamente observadas, manifestam por si a grandeza que cada uma tem, e também a sua capacidade, as suas forças, a sua natureza”. Quantos sistemas filosóficos não se afogaram em praia rasa, justamente pela ausência de uma atenção por parte do filósofo, à altura do que pretendiam.

Essas reflexões que o professor Olavo faz sobre a verdade, fundamentais para a pedagogia, repousam na dimensão metafísica, onde a Verdade é a manifestação da essência das coisas. Plotino nos diz: “A Verdade verdadeira não enuncia nada fora de si, mas enuncia o que ela mesma é (Enn.,V)”. O fenômeno da verdade, desde a humilde constatação da certeza da existência de si próprio, até à última das leis, tem a mesma substancialidade do princípio que se manifesta nela. Esse conceito acompanha toda a escolástica, onde a Verdade é o próprio intelecto ou Verbo de Deus. A verdade assim é hipostatizada. E essa dignidade do fenômeno é exigência fundamental para o filósofo Olavo de Carvalho.

Essa confirmação interior de uma verdade também nos aproxima do conceito platônico da reminiscência, na medida em que essa conformidade íntima do objeto com o sujeito apresenta-se como se a realidade descoberta já fosse previamente no próprio sujeito e o descobrí-la seria nada mais que uma lembrança de si próprio, uma confirmação. Creio que o fenômeno do enamoramento realça essa anterioridade. Quando amamos alguém ou alguma coisa temos aquela certeza de que estávamos esperando por ela muito antes de a conhecermos. Creio ainda que o romantismo deve muito de sua força a essa “magia” do fenômeno amoroso. Mesmo que a ciência moderna continue a procurar quais hormônios são responsáveis por esse lapso de tempo que o amor nos provoca, o fenômeno em si escapa ao controle fisiológico porque também se dá em outras instâncias e dimensões.

O senso comum diz que o processo do conhecimento nada mais é que um acúmulo de informações, mas verdadeiramente inteligir significa tornar-se inteiro, íntegro, digno. Aquele que verdadeiramente sabe, é o que sabe. Ortega y Gasset dizia: “Só pode entrar o mundo em minha mente, se a estrutura de minha mente coincide, em parte, com a estrutura do mundo”. E ainda: “Não bastaria ligar as coisas entre si se, na verdade, elas não se ligassem ao mesmo tempo conosco”.

É preciso despir o conceito de inteligência das atribuições espúrias, acidentais do fisiologismo ou do psicologismo atuais, para antever essa transcendentalidade. Nesse sentido “Inteligência, Verdade e Certeza” é também um guia, um receituário para o neófito, para o amante do saber. E só para o amante, pois é com muito carinho e precisão que ele nos ensina a amar a verdade, por mais humilde que seja, chegando ao ponto de abdicar de sua busca, serenamente, quando sua revelação se mostrar tão distante. Há grande sabedoria quando nos pede tolerância para com a dúvida, quando nos pede essa renúncia, esse voto de pobreza de opiniões, caso amemos verdadeiramente o saber. É praticamente um tratado de yoga, cujo nome também significa “união” com o todo. Sim pois cada verdade, independente da sua estatura, de seu lugar em nossa hierarquia de valores e interesses, cada verdade é do tamanho do mundo; é o inteiro todo ali na parte. Toda verdade é, pois, profilática. E mesmo que seja difícil suportá-la, não podemos mais negá-la a não ser comprometendo seriamente todo o nosso ser.

Contrário a essa dimensão metafísica da Verdade e da Inteligência está todo um exército de pensadores e instituições que vêem na verdade nada mais que a validade ou a eficácia dos processos cognitivos, onde o conhecimento é apenas um processo mental ou lingüístico. Estudar assim os critérios de verdade nada mais é que enumerar esquemas de raciocínio, formais e fisiológicos. A verdade hoje, quando aceita, não passa de uma conformidade a uma regra, apenas um critério formal, segundo Kant.

O mais antigo conceito de verdade encontra-se formulado por Platão no Crátilo: “Verdadeiro é o discurso que diz as coisas como são”. E também Aristóteles que diz em sua Metafísica: “Negar aquilo que é, e afirmar aquilo que não é, é falso, enquanto afirmar o que é e negar o que não é, é a verdade”. Esse conceito implica em que o ser é a medida da verdade. Santo Agostinho nos diz: “A verdade é o que revela o que é, ou o que se manifesta a si mesmo. Para ele a verdade é o Verbum ou o Logos, que é a primeira, imediata e perfeita manifestação do ser, isto é, de Deus. Aos poucos, os conceitos vão perdendo seu alcance metafísico e teológico e passam a assumir um significado cada vez mais lógico e hoje lingüístico ou semântico.

Olavo de Carvalho recupera a dimensão metafísica, sem, no entanto, ser mais um abandono, parcial ou não, do mundo. Ao contrário, é seu empreendimento metafísico que nos salva da limitação dos fatos e da solidão das coisas.

Em “Inteligência, Verdade e Certeza”, revela-se não uma solução alternativa à polêmica sujeito-objeto, nem como opção nem como sucessão, pois a dicotomia ao longo da história sempre marcou uma tirania de qualquer dos lados. O que se revela é a feliz cumplicidade dos extremos diante do caráter transcendental do fenômeno em si. Olavo aponta para o infinito, onde essas paralelas se encontram e onde a paralaxe não compromete nossas ciências. Obviamente que não apenas nesse ensaio mas em toda a sua obra os princípios metafísicos balizam as questões e há sempre aquela conformidade da coisa com a essência do intelecto. Mas é justamente nesse ensaio onde ele nos invoca a amar o próximo como a nós mesmos, pois não podemos verdadeiramente conhecer se não nos conhecemos. E assim, sua pedagogia se aproxima dos exercícios espirituais das várias tradições, onde o homem é microcosmos e a consciência dessa realidade se faz num processo ascético que é antes de tudo ético e intelectual. Ou seja, a inteligência não se esgota na cognição, pois ela também depende da disponibilidade, da vontade de conhecer. É por isso que ele declara que a bondade se aproxima bem mais da inteligência que os cinco sentidos, pois negar a verdade de alguma coisa é negar toda a realidade, o que inclui a si próprio, a própria inteligência. A malícia, a maldade pode ser engenhosa, mas é sempre burra por destruir a si própria.

Contrária ao sentido iniciático, a formação intelectual moderna é mais uma tirania perante o mundo, pois o abandono da verdade, de seu caráter absoluto, é nada mais que uma trama hedonista cuja conseqüência é a miséria do mundo e a decadência do humano. A parcialidade da verdade de consenso, como defende Habermas, ou da verdade como utilidade como defende Gramsci, dentre outros, nos afastam ferozmente do ser, que é sempre inteiro e único. A opção utilitarista ou consensual, instituída pelo poder, num lava-mãos maquiavélico, é justamente a substituição de Jesus por Barrabás. A verdade que se cala por não ter definição, pois a tudo defini, é substituída por sua paródia, por um arremedo de liberdade, por uma esperança sanguinária no final da história, onde o quiliasmo proletário é a própria divindade.

E mesmo admitindo a verdade apenas como uma conformidade entre o pensar e a coisa pensada, nenhuma dessas soluções são inteligentes pois abdicam do próprio objeto ao retirá-lo do universo de relações que o caracteriza. Pois qualquer falta de qualquer dos elementos, por mais acidentais que sejam, corrompe toda a trama da realidade. A modernidade faz de seu acúmulo de dados um substituto da verdade metafísica, mas ainda que o conjunto de informações sobre as coisas seja monumental, é infinitesimal em relação ao universo que o cerca. Não dá para comparar a unidade da evidência com a colagem da estatística. E ainda que obtenham o maior conjunto de informações, tanto dos sujeitos quanto dos objetos, também comportam a maior cegueira em relação à organicidade de ambos. Esse salto qualitativo na leitura do mundo depende de uma boa formação metafísica.

Nesse sentido, recuperar o conceito tradicional de Inteligência e de Verdade é recuperar simultaneamente uma doutrina soteriológica, filosófica e política, pois salva não apenas o homem mas o mundo. Olavo nos faz lembrar do ideal platônico de uma “República” governada por filósofos. Mas demonstra, com a tranqüilidade de uma manhã, que não se trata apenas de um esquema político, de um estratagema, mas de um imperativo categórico. Trata-se da elucidação da natureza mesma do fenômeno humano. Obviamente que não devemos procurar em seus textos táticas de uma possível guerrilha cultural, mas encontraremos, sem dúvida, as mais evidentes verdades pelas quais devemos lutar. E se a formação do indivíduo pode ser considerada a única tática infalível, temos um grande estrategista, pois a amplitude de suas reflexões, a abrangência de suas pesquisas e a humildade generosa de suas palavras, é prova cabal de uma inteligência de verdade.

Vassouras, 17 de junho de 2000.

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