Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

A aridez humanista no filme ¨Últimos dias no deserto¨

Assisti ao filme “Últimos dias no deserto”, do diretor Rodrigo Garcia e só não afirmo qultimosdiasnodeserto-filme1_43503ue foi completamente inútil porque ajudou-me a combater um de meus pecados, a preguiça em escrever.

O filme é uma livre interpretação sobre os 40 dias de jejum e oração de Jesus, no deserto, rumo à Jerusalém. Nessa jornada, vemos algumas das tentações do diabo e a relação de Jesus com uma família que vivia no deserto. Seja do ponto de vista cinematográfico, teológico ou mesmo se quisermos vê-lo como uma fonte de inspiração moral, o filme é um fracasso. O excesso de panorâmicas do deserto parece querer trazer-nos uma metáfora de uma profunda solidão, mas apenas assistimos a solidão da própria câmera. Os close-ups dos personagens não mostram nem mesmo o castigo de uma pele sob um sol escaldante. O filme é raso, entediante e fracassa até mesmo ao pretender ser uma visão puramente humanista de Jesus.

O credo cristão afirma a natureza de Jesus como plenamente homem e plenamente Deus. Isso significa que Deus encarnado assumiu a humanidade, sendo passível de todas as nossas fraquezas. Se assim não o fosse como Ele poderia garantir que é possível vencê-las?

Ainda que Jesus tenha se desenvolvido como todo e qualquer humano, permaneceu Santo, sem pecado e seu caminho nos trouxe, não somente redenção, beleza e glória à civilização, mas primordialmente a salvação da alma humana, a dignificação do humano acima de toda e qualquer ordem natural. Jesus Cristo é a encarnação do modelo de santidade por excelência, mas não podemos confundir seu caminho como sendo a santificação de um homem em busca de Deus, como muitos o foram ao longo da história, mas ao contrário, Ele era o Deus que veio em busca do homem. Essa grandeza do fenômeno do advento cristão nem de longe está contemplada nesse filme, e não é por isso que o critico, mas sim pela enfadonha tentativa de reduzir Jesus Cristo ao puramente humano, onde se nos apresenta um vazio que nem o próprio deserto pode simbolizar.

É certo que Jesus sentia tristeza e angustia (Mt 26:37), alegria (Jo 15:11), indignação (Mc 3:5), ira (Mt 21:12,13), tormento (Mc 14:33), e tantas outras emoções humanas. Nem mesmo seu conhecimento era ilimitado (Mc 13:32), ainda que fosse um conhecimento superior aos dos homens, pois sabia o que amigos e inimigos pensavam (Lc 6:8; 9,47), conhecia o presente, o passado e o futuro (Lc 22:33).

A exploração dos sentimentos da humanidade de Jesus poderia nos abrir para a grandeza de seu sacrifício, se e somente se  contemplamos sua natureza divina. Se Jesus Cristo não é o Deus que nos procura, mantendo a aliança própria de Seu amor, desde o início dos tempos, e reduzimos Jesus a mais um homem que buscou a Deus, toda a história do cristianismo se torna ainda mais misteriosa. É uma hipótese tão eloquente e vazia quanto a teoria do caos para explicar toda a maravilha da criação.

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