Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

A Perfeição do Futuro

Era de Aquário. Muitas lembranças nos traz esse futuro que já passou: Shangrilá, Woodstock, Cabo Canaveral, esotéricos, hippies e cientistas. A modernidade, o maior dos símbolos aquarianos, caracteriza-se justamente por ultrapassar-se, numa imitação de autotranscendência. Nem mais o futuro é novo. O que nos espera?

É comum perguntarem quando começaria a Era de Aquário. A comunidade astrológica ainda não chegou a um consenso sobre qual fato histórico repousaria o símbolo definitivo do início da Era. Para alguns seria a descida do homem na Lua, ou seja, ao pisar em um outro corpo celeste o homem estaria realmente entrando no domínio dos deuses, ou equivalendo-se a eles. Para outros a comunicação global é o fato mais significativo justamente por ser o primeiro verdadeiramente “universal”, querem dizer, mundial. Na verdade essa preocupação de calendário poderia ser resolvida astronomicamente, na medida em que uma Era é marcada pelo Ponto Vernal. Mas é óbvio que a fronteira de uma Era não se confunde com a geográfica por exemplo. Os sinais da puberdade não esperam pela data de aniversário da criança.

É grande a quantidade de sinais que nos permitem dizer que já vivemos a Era de Aquário. Há muitos abusos em seu nome e gostaria de citar a numerosa lista, mas antes precisamos saber o que é uma Era e o que será ou seria a de Aquário.

Ao se falar em Era não se está simplesmente quantificando um período de aproximadamente dois mil anos, não é mais uma unidade de tempo mas antes a unidade de um tempo. Não é um jogo de palavras. O tempo está em relação com os eventos que se manifestam e é justamente uma leitura qualificadora do tempo que pode nos revelar a eternidade que o atravessa. Essa eternidade que contém o instante é anunciada pela unidade que conseguimos antever com os símbolos que a cultura nos apresenta. Trata-se aqui do tempo como a ordem do movimento.

Mas como falar em ordem do movimento se a iconoclastia de nossa época destruiu-nos a esperança de encontrar um sentido nas coisas. Aliás, se há um prefácio para a Era de Aquário é justamente o do abandono do significado. Como falar em unidade quando essa foi substituída pela uniformidade, seguindo o plano do grande imitador de Deus. Aliás, imitações é a ordem do dia. E toda essa paródia de nossos dias inaugura a Nova Era. Uma era de espiritualidade rasa, cuja proliferação de ritos e amuletos é mero disfarce para quem não quer nascer novamente. O homem de Aquário só poderia ser um homem novo se conseguisse perdoar e amar conforme a Era de Peixes nos trouxe. O fracasso do amor da Era de Peixes – digo culturalmente, pois temos nesses dois mil anos grandes almas que nos inspiraram – fez com que nossa civilização privilegiasse uma hierarquia pedante, uma farsa de valores que embotaram nossa capacidade de amar, privilegiando o sentimentalismo que termina por se vender a cada novo estilo da praça. Como esperar um novo homem em Aquário com déficit tão profundo. Somos um acúmulo de déficits internos e externos e não temos força espiritual nenhuma para saldá-lo. As nações não se perdoarão umas às outras. Nós não perdoaremos uns aos outros. E um nivelamento cultural monstruoso está sendo preparado para solucionar esse problema. A civilização não pode esperar pela conversão nem pelo messias. Tentaremos simplesmente nos livrar dessa herança radicalmente. O futuro só sobreviverá com a morte do passado.

Na Era de Aquário ufanamo-nos de uma pseudo-divindade, sem espiritualidade mas com bastante tecnologia. Em relação com o que vem por ai o humanismo Prometéico se parecerá com um conto de carochinha. Lembrando o poeta Ângelo Monteiro, a idéia é não só roubar o fogo divino mas alterar-lhe a natureza.

O símbolo de Aquário guarda idéias de universalidade, infinitude, significados múltiplos, interdependência sistêmica, mas obviamente a leitura de toda uma Era é também a leitura de todo o zodíaco em sua relação com o eixo em questão. Um olhar atento pode nos dizer sob que condições essas idéias serão vividas e realizadas. Essa prestidigitação aquariana que promete nos livrar do passado é já um escândalo em si mesma.

Toda Era é na verdade um eixo de significados. Trata-se portanto do eixo Aquário-Leão. Também devemos levar em conta os aspectos que se formam com os demais signos. São chaves para se interpretar os dias que virão. Denunciatórios de uma grande paródia, de uma imitação de universalidade pela máscara da globalização, de uma falsificação de unidade pela programação de uma uniformização. A morte do passado inaugura esse futuro avassalador, mais que essa virtualidade eletrônica. Trata-se de um crime. Seria preciso mais que um artigo para denunciá-lo, pois não nos escandalizamos mais. Por enquanto basta esse preâmbulo de mal gosto.

Leão, como um símbolo do eixo que se aproxima, indica o caráter centralizador por traz dessa nova independência do individual, que não passa de outra grande mentira. O que Aquário dispersa, Leão concentra. Libertem todas as crianças de seus pais para depois haver apenas um.

Todos os acordos feitos em nome do homem novo nascem do crime. Parodiando a ressurreição aplicamos regras liberais a um passado que insiste em sobreviver. Os Estados Unidos já disseram em alto e bom tom que o problema financeiro do Japão só será resolvido quando eles abandonarem suas tradições. Mas não sejamos ingênuos ao ponto de acreditarmos que o mal do século concentra-se num governo. Fiquemos atentos ao novo acordo internacional chamado MAI (“multilateral agreement on investimen”). Esse clube de interesses escusos poderá, e já o faz, processar qualquer país que ouse prejudicar seus lucros. Vejam que a ficção científica já se tornou realidade e o virtual se insurge contra o real. Essa política vem há três anos sendo formulada secretamente. Nem o Congresso Americano nem a Comissão de Assuntos Internacionais da Assembléia Nacional Francesa sabiam. O clube de Bildeberg, o Clube de Roma, Council on Foreign Relations, são alguns exemplos da obscuridade de um governo globalizado, expressão da grande quadratura da Era: Aquário e Escorpião.

Onde está o mal? A banalização do mal já nos diz que ele não tem mais rosto. “Meu nome é legião!”, já dizia o grande sacana. Esses novos planos que as corporações tecem à noite substituem os governos. Se um país quiser traçar um plano de desenvolvimento terá que ser compatível com os interesses “internacionais”. Não poderemos nem sequer avaliar o desempenho dessas novas empresas multinacionais. Qualquer tentativa de diferenciar capital nacional do estrangeiro será uma infração imperdoável. Não haverá tolerância. Aliás o sistema que se aproxima será muito mais intolerante do que as culturas que o “futuro” prometeu salvar. Prometeu acorrentando.

Aquário-Leão é a vanglória de termos luz própria em relação as civilizações que nos precederam, mas é uma luz luciférica. Pobre Era de Aquário. Vale alguns bilhões de dólares. Obviamente que há muitos souvenirs desse futuro como o uso disseminado da energia solar, que alimentará nossas casas e carros. Há quem veja em Leão a própria divindade solar retornando, conforme prometido, para evitar tais escândalos e em nome dos escolhidos apressar os dias. Tais ditames a Deus pertence.

O que mais se vende sob o símbolo da nova era é justamente a perfeição tecnológica abrangendo praticamente todas as áreas do humano, desde o próprio corpo até os sentimentos. Essa ideologia da perfeição já convenceu a própria humanidade de que é preciso fazer um ser humano melhor do que Deus o fez. A eugenia proposta pela tecnologia genética inaugura uma nova série de questões sociais, éticas e religiosas. Os atuais preconceitos de cor ou sociais serão meras disputas infantis em relação aos novos preconceitos baseados na herança genética. A morte do passado, da tradição, se fará desde agora com a profundidade mais que cirúrgica da manipulação dos genes. O homem novo da Era de Aquário não é mais uma questão de fé mas de genética. Há já uma série de defensores de plantão que procuram alijar a prática científica das questões ético-religiosas e afirmam que tudo não passa de uma crise de maturidade “científica”.

Essa euforia aquário-leonina conflitante com Escorpião não nos reserva o direito de acharmos que trata-se apenas de uma crise de amadurecimento. Ufólogos acreditam que os extra-terrestres já estão ai por cima ou ai em baixo, prontos para nos livrar de uma hecatombe. Há também, menos remotamente, a possibilidade de uma guerra santa fazer cumprir mandamentos divinos a todo custo. O Cavaleiro do Apocalipse é tão real e secreto quanto essas organizações diabólicas de investimentos ou essas seitas jihadistas. Seja como for, a morte é um dos sinais da Era, pois não é possível renascer sem morrer.

Eu espero que ainda possamos amar e perdoar. Não devemos substituir a maturidade espiritual, que é produto do amor, com o radicalismo fundamentalista, mas essa perfeição futurística e seus planos diabólicos não permitem outras possibilidades. Seja na dimensão pessoal, fanático-penitencial, seja na dimensão cultural, com o fanatismo bélico, o radicalismo é a consequência inevitável da sombra da luz artificial de nosso tempo.

Devemos morrer sim, mas para o que é mesquinho, para o que for contrário ao espírito, ao amor. Como disse Ângelo Monteiro:

“Para aqueles que trazem o santo, a criança ou o poeta, dentro de si, o Natal estará sempre para ser criado. Porque sendo Ele o Alfa – por habitar sempre na origem – será, por consequência, também o Ômega de todos aqueles que desprezam o mercado, porém permanecem acreditando na Vida.”

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