Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

O revolucionário

Behemoth e Leviathan -William Blake

Behemoth e Leviathan -William Blake

A modernidade se gabou de inaugurar a idade das luzes, na qual a razão resolveria todos os problemas, iluminaria todos os mistérios e derrotaria para sempre o obscurantismo religioso. Em verdade, não passa de um dos maiores engodos da história, de tão grande proporção e alcance que podemos usar como metáfora do método luciférico.

Para quem conhece de metafísica é fácil reconhecer a recorrência dessas tentações ao longo da história da humanidade. A perda do paraíso pelo conhecimento é na verdade a grande metáfora desse divórcio entre o ser e o conhecer. A autonomia da razão, advogada pela modernidade, ao abandonar qualquer fundamento de ordem superior, criou armadilhas e labirintos insolúveis, como uma espécie de paródia da infinitude que abandonou.

Poderia aqui ilustrar os grandes dilemas desse espírito revolucionário ao longo da história do pensamento, mas é, em especial, na filosofia política, onde esquerda e direita se revezam, qual  Behemoth e Leviatã na luta pela conquista, que podemos assistir a grande farsa que pretende dominar nossos dias.

A modernidade não inventou nenhum método de investigação da natureza, pois desde Aristóteles e ao longo de toda a Escolástica a investigação da natureza já era um método e fazia parte da formação da intelectualidade. O que é certo dizer é que o método foi aperfeiçoado, mas foi acompanhado de um distanciamento crescente da metafísica e de toda uma tradição de pensamento que colocava o homem e a natureza como criaturas de um mesmo processo criativo, onde sujeito e objeto dialogam, pois comungam da falta ontológica que os sustentam.

Todo um passado precisava ser abandonado. A Igreja Católica e toda a tradição sapiencial passou a sofrer um processo de desqualificação e desmoralização que persiste até hoje. O filósofo Olavo de Carvalho denunciou a “presentificação” das experiências como uma espécie de fuga do auto-exame de toda a sociedade, ao excluir outras épocas históricas como termo de comparação. Esse “cronocentrismo” que se recusa em ouvir as vozes do passado, passou a controlar a narrativa histórica como uma mera sucessão impessoal, consequência da revolução científica do domínio do homem sobre a natureza.  Hoje está muito claro que esse controle não se reduz aos processos materiais, ou a mera guerra pelo controle dos meios de produção, como defende a pífia análise marxista da história. O controle de nossas vidas espirituais está na pauta de toda uma engenharia social, a partir de um governo cada vez mais obscuro e totalitário. Esse governo, em sua luta por hegemonia, tem duas cabeças, ainda que múltiplos agentes.

Essas duas forças obscuras que encontramos no Velho Testamento sempre representaram uma multidão, um plural de animais, bestas, uma legião. Em Jó e Isaías a serpente recebe o nome de Leviatã. Esse animal tortuoso é também um símbolo de Lúcifer, o “fazedor da luz”, o Phosphorus. A luz de sua criação em nada se compara ao Fiat Lux do Criador. Lucifer é uma luz que cai, tal como Cristo o disse: “Satã caindo do céu como um relâmpago” (Lucas 10:18). Por certo é uma luz sedutora, mas que nos leva a uma queda. Estar consciente do Pecado Original é, pois, estar consciente da debilidade da luz que as coisas projetam e da sedução que provocam ao nos afastar da verdadeira luz, da qual são mero reflexo.

Assim sendo, a modernidade ao excluir Deus como fundamento da razão, a transforma numa órfã arrogante, desobediente e desesperada. Toda uma herança cultural e científica, de profunda beleza e força salvífica, foi adulterada pela razão que pretende tomar para si o fundamento absoluto.

O verdadeiro saber nos coloca diante de uma consciência profunda acerca de nós mesmos, de nossa responsabilidade moral e isso limita a liberdade que a modernidade prometeu. Seja uma inquirição filosófica ou uma investigação de leis naturais, a reflexão ética é um imperativo na consciência humana, seja nos limites, alcances e consequências do saber, seja na utilidade, necessidade e consequências do fazer.

Conhecer de verdade é também se deparar com nossa loucura e desespero ao trocarmos o paraíso, a união paradisíaca com Deus, pela consciência do parricídio, o que deveria exigir humildade. Nesse ponto Dr. Freud acertou em cheio ao escolher o mito de Édipo.

O saber tornou-se uma revolta inconsciente contra si mesmo, um instrumento de poder, e um poder revolucionário. Louis Pasteur bem o disse: “Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima.” Os desafios éticos que todos nós enfrentamos em todas as áreas  humanas, estão alarmantes. Esse muito saber a que Pasteur alude está no encantamento perante o mistério do infinito do macro e do microcosmo, que, ao contrário da revolta pela intangibilidade da natureza das coisas, deveria nos levar a humildade pela constatação da limitação de nosso conhecimento, mas ao mesmo tempo do amor que se revela quando compreendemos a própria razão como um dom em si mesma.

Ao invés de uma conversão, de uma metanoia que nos torna seres humanos melhores, o saber moderno, sempre insatisfeito, nos transforma em rebeldes e tiranos, empoderando nossa rebeldia com toda sorte de artefatos. A tecnologia hoje alcançou um nível de dominação global, invejável a todos os tiranos da história, e a liberdade que a modernidade prometeu, continua acorrentada. Seu domínio ambivalente rasteja serpenteando para nos alcançar. À esquerda e à direita a sedução do poder continua a nos torturar. O caráter de legião desse poder se apresenta hoje muito mais claramente.

Todo movimento político pertence a uma agenda luciférica das massas, ou seja, independente do espectro político, tem mais ou menos a rebeldia da modernidade contra a onipotência divina. Os valores éticos, o modelo de santidade proposto pelas tradições religiosas, são entraves ao progresso materialista. Não importa se é a  liberdade de mercado ou a sexual, ambas as compulsões são rebeldias contra uma instância que é sempre maior do que o desejo pretende conquistar.

Albert Camus com sua obra ´”O Homem Revoltado” acerta ao dizer que a revolução política não leva a lugar algum. Sem elevarmos nossa consciência acerca do bem e do mal, ou seja, sem nos transformarmos conforme um modelo de santidade trazido pelo próprio Deus, através de seus profetas, santos e finalmente de sua própria encarnação, todas as nossas ações serão nada mais que rebeldias infantis, uma rebeldia contra toda a criação, contra nossa própria condição, contra Deus enfim.

A revolta é constituinte do humano, com certeza. Tanto o que deseja a santidade quanto o que dela foge estão insatisfeitos com sua própria condição. Mas, sem nos aprofundarmos numa reflexão metafísica, o que fugiria do alcance desse artigo, vejamos na própria história, bem mais prosaica, para intuirmos que direção tomar.  Toda a história é uma sucessão de combates por liberdade, contra a tirania, a injustiça, a insegurança da vida, mas vejamos quais respostas nos tornaram realmente melhores e mais livres e, ao contrário, quais nos transformaram no próximo algoz.

A verdadeira revolução é contra a inconsciência de nossa própria natureza.

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