Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

Todos somos reféns

A polêmica em torno da exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, que estava em cartaz no Santander Cultural no Rio Grande do Sul, encerrada antes do prazo, após forte reação de parte da sociedade brasileira nas ruas, mas principalmente através das redes sociais, é um capítulo novo e interessante, mas que ultrapassa o já consolidado embate político entre coxinhas e mortadelas. A corrupção política foi substituída por algo mais denso e fundamental. Não deixa de ser um alívio ver que deixamos a política nas mãos da polícia e passamos a discutir assuntos mais substanciais.

Essa é mais uma dentre tantas outras questões a se discutir nas redes sociais, a maior ágora de todos os tempos. Peço até desculpas aos gregos pelo termo, pois a discussão numa ágora, a praça pública na Grécia Antiga, era fundamental para a democracia grega, mas pressupunha um certo nível intelectual dos cidadãos. O mesmo não se dá nessas discussões virtuais onde todos os elementos estão sob suspeita: a censura ideológica crescente pelos proprietários dos canais de comunicação, a formação intelectual dos interlocutores e a cultura onde todos nós estamos mergulhados, cuja hegemonia de pensamento, também crescente, do politicamente correto, do relativismo generalizado e de ressentimentos estrategicamente cultuados por agentes sociais e seus organismos, deixa tudo muito confuso e de difícil compreensão.

Não pretendo aqui analisar esse emaranhado, mas esse episódio específico, pois acredito ser emblemático para tantas outras polêmicas que se desenvolvem nessa praça.

 

Parte crescente da sociedade brasileira se revoltou com a dita exposição alegando crime contra os costumes, contra a crença religiosa e em defesa da criança e do adolescente. Leis e direitos adquiridos, de ambos os lados, foram alegados, levando o instituto a cancelar a exposição. O repúdio, seguido por um boicote ao próprio banco Santander, e que levou ao cancelamento por parte de seus promotores, foi estrategicamente interpretado como censura, uma palavra-chave de forte apelo emocional para uma elite de intelectuais, artistas e fazedores de opinião que insistem em sobreviver de uma espécie de trauma causado pelo regime militar. O boicote ao banco Santander é uma consequência inevitável e legítima diante de uma afronta a valores tão caros a pessoas e instituições. A Igreja Batista de Bacacheri, em Curitiba, emitiu uma nota que é exemplar: “Seria indecente a qualquer instituição cristã continuar a enriquecer àqueles que ridicularizaram de forma tão grosseira e proposital o próprio Cristo, a razão de ser de todas as igrejas”.

A censura é uma ação que depende do Estado, o que não foi o caso, mas o vitimismo é a tônica em todos esses grupos que denunciam “censura” quando se critica qualquer dos valores preteridos pela agenda do politicamente correto, a filha mais nova do gramscismo. É um instrumento da guerra cultural marxista que se mostrou muito mais eficiente que todas as guerrilhas armadas.

Como não poderia deixar de ser, uma vez que tal agenda é internacional e atende ao globalismo avassalador, a reação desencadeou, pelo Brasil e mundo afora, uma onda de artigos e análises sobre a censura e o crescimento de uma nova direita e, pasmem, de um pensamento conservador.

O jornal britânico The Guardian publicou que uma “tempestade sobre liberdade artística e censura irrompeu no Brasil”; o americano The Washington Post ressaltou o posicionamento dos defensores da exposição que dizem se tratar de uma “afronta à liberdade de expressão”. Em quase todas as matérias, nacionais ou estrangeiras, há sempre uma ênfase na ligação dessa reação popular com grupos de direita ou religiosos, denotando um atraso cultural ou coisa que o valha.

A exposição, para os que defendem valores religiosos e tradicionais, traz blasfêmia, pedofilia e bestialidade travestido em arte, a despeito dos valores que fundaram nossa civilização e mantém a coesão social. Os que defendem a exposição reclamam de censura e crime contra a liberdade de expressão.

Seria uma guerra de liberdades? Mas o que é e pra que serve a liberdade? Temos que lançar mão da filosofia e da história para entender e calcular seu valor. Esse exercício deveria ser obrigatório, mas os defensores de tal exposição negam toda e qualquer tradição que desafie o simples desejo humano, qualquer de suas pulsões e instintos. É o hedonismo puro e simples. Claro que a permissividade absoluta implica na dissolução de todo o tecido social, mas talvez seja esse o objetivo.

Outros grupos indagam: a liberdade de expressão poderia ser permitida se tais expressões não utilizassem verba pública? Num país onde o índice de desenvolvimento humano é um dos mais baixos do mundo e a educação básica ainda não consegue ensinar a higiene pessoal creio que financiar eventos culturais que desafiam a lógica mais básica da biologia e pretendem ser a última palavra sobre a sexualidade humana, desafiando valores que são fundamentais à coesão social é, no mínimo, um escarnio.

Os intelectuais que condenam a família, e fazem eco as ideias de Engels e Marx, que diziam ser a família uma excrescência burguesa, pretendem destruir todo o sistema político, jurídico, religioso e filosófico que não esteja sob a tutela de um Estado totalitário e regido pela ideologia marxista. Hoje isso é muito confuso para a população, pois é em nome da diversidade que procuram implantar o totalitarismo. A questão não passa despercebida aos que conhecem os estratagemas da esquerda moderna, pois sabemos que a liberdade individual é apenas um discurso e uma estratégia de um regime que quer ser absoluto. Todos os regimes de fundamento marxista foram totalitários e suprimiram, calaram e assassinaram toda e qualquer dissidência, muito mais que em qualquer outro regime ao longo de toda a história da humanidade. Por isso é fundamental analisar o conceito de liberdade, sob o ponto de vista histórico, político e filosófico, sob o risco de ficarmos reféns de uma mera histeria cada dia mais coletiva e agressiva.

O que quer a suposta mostra artística? Qual a proposta anunciada por seus autores? Segundo seus interlocutores se tratava de uma reflexão sobre a realidade vivida pela comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros): preconceitos e intolerâncias às diferenças. Essa é, na verdade, uma agenda que já invade nossas escolas, independente da capacidade de nossos professores e coordenadores pedagógicos para lidar com temas relacionados ao sexo. Mas essa não seria uma questão reservada aos pais? E mesmo na falta deles, o Estado não deveria ser mais prudente em assunto tão decisivo ao desenvolvimento cognitivo de nossas crianças? Nada disso importa, nem a biologia, uma vez que um suposto “direito absoluto” de uma agenda igualitária escusa e histérica domina cátedras, centros culturais, canais de comunicação e poderes legislativos mundo afora. Psicólogos já criticam a erotização prematura de nossas crianças há algum tempo e essa exposição pretende coroar uma doença anunciada. Que liberdade tem esse poder?

Qualquer um que tiver visto as obras apresentadas saberá que a proposta foi um mero discurso, ultrapassando em muito a cândida defesa dos direitos humanos. Na verdade foi aviltante e, não só o ser humano, mas até animais, foram objetos dos mais sórdidos instintos.

A estratégia é estúpida, pois como promover aceitação social agredindo os valores mais básicos dessa sociedade preterida? É claro que não se trata de um diálogo, mas de uma afronta. A agressividade dessa agenda dita “igualitária” não é novidade, mas a reação a ela o é. Se a sociedade vai realmente acordar para o essencial e vencer o inimigo que reside desde sua própria indolência e apatia perante os desafios de uma modernidade que vive da autodestruição, do consumismo escapista e do hedonismo suicida, não sabemos. Se não enfrentarmos tal desafio estaremos todos, e não só a arte, reféns de um algoz coletivo e sedento de poder. Quem viver, verá.

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