Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

Uma santa inquisição

Ângelo Monteiro é um poeta num grau de excelência que só é percebido por quem não foge, não se esconde da tragédia e da dor da existência humana. Eu conheci Ângelo como professor, depois amigo e só depois como poeta. Na verdade o poeta ainda é um grande e adorável desconhecido. Há um senso comum em sua fortuna crítica que o classifica como um poeta místico ou religioso, mas essa é uma classificação tão profunda que é quase muda, deixando-nos sempre inquietos sobre a interpretação de seus poemas. A última edição, belíssima por sinal, da obra “o inquisidor e as lições de passagem”, pela CEPE Editora, me fez reler poemas que me surpreenderam ainda mais sobre sua verve artística, sobre sua intimidade com a tradição iniciática e, à semelhança de um Dante, nos leva a infernos e purgatórios, mas com uma cruel solidão. Seu Virgílio parece ser essa solidão, cuja sabedoria é uma cornucópia de sentimentos gritantes.

Muito já se escreveu sobre sua rítmica e como não sou um crítico literário me julgo incapaz de identificar e apreciar, mas não de sentir. O ritmo de caráter heroico de seus poemas possue uma força inegável e disputa com a mensagem a atenção do leitor. É uma estrutura encantatória.

Os poemas são muito bem trabalhados e de um nível intelectual que, parodiando Nietzsche, é “para todos e para ninguém”. É ainda mais difícil imaginar sua compreensão nos dias atuais onde gritos e sussurros substituíram a meditação e a reflexão, onde bandos naufragam suas frustrações e uma agenda progressista galopa contra toda uma tradição espiritual que não só fundou nossa civilização, mas permanece viva em sua misericórdia, sem a qual estamos todos mortos e à merce de um niilismo terrível.

A postura épica dos poemas de Ângelo Monteiro ante os percalços da existência é cada dia algo mais anacrônico, mais inútil para uma modernidade hedonista e covarde. Nenhum grande tema existencial é mais discutido, apenas lamúrias infantis e revoltas contra uma incapacidade de ser feliz a cada nova liberdade conquistada. Essa tragédia da modernidade permeia toda a obra de Ângelo Monteiro. A densidade de sua palavra contrasta escandalosamente com a melíflua humanidade de nossos dias. E não apenas pelos temas que defende ou pela profundidade intelectual, mas por uma rara honestidade entre sua literatura e a vida mesmo, sem subterfúgios, divinos ou humanos. Se estamos cegos ou surdos quanto a Deus, seus poemas o dizem sem pudor e a dor é tão dilacerante quanto o pode ser.

“Quem saberá da dor que lhes foi sumo,
que neles se escorreu, por entre as ânsias
da noite que de estrelas os sangrou?

Onde irão espremer essa loucura
dos que sonham o possível no impossível,
dos que beijam uma fé sob os escombros?”

A inquisição do poeta é espiritual. Em sua crítica ao materialismo ou ao psiquismo, que se traveste de espiritualidade em nossos dias, ela se volta para uma interioridade que parece não mais existir, confirmando assim profecias de todas as tradições espirituais. Mas tais poemas não fazem eco em nossa geração, seja em conservadores que buscam defesa lustrando um passado barroco, seja em progressistas que apenas conhecem a inquisição histórica, ainda que nem esta realmente conheçam.

A leitura dessa obra não é fácil, não apenas porque exige vocabulário e formação literária, mas porque exige um mínimo de conhecimento de si mesmo. Essa autoinquirição é uma santa inquisição.

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