Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

É russo!

O centenário da Revolução Russa reascendeu a chama de seus defensores, em todas as academias mundo à fora, menos por seus resultados intelectuais e científicos, que por sua vitoriosa propaganda.

Foi uma revolução ateia num dos países mais religioso do mundo. Sem dúvida que é um grande episódio da história da humanidade. No entanto, o espírito revolucionário sempre foi contrário à verdadeira espiritualidade. A própria Revolução Francesa já tinha destruído igrejas e assassinado padres alguns séculos atrás. Mas, sem dúvida, há características marcantes na revolução russa, e o são tanto quanto o são diabólicas, ou, para evitar um vocabulário um tanto religioso, desumanas.

Foi uma revolução operária num país eminentemente de camponeses; uma revolução socialista num país onde a grande aspiração era a propriedade individual; uma revolução de intelectuais num país que tinha a maior taxa de analfabetismo do mundo. Claro que os Romanovs não tinham vencido um certo feudalismo, mas a revolução de 1917 aprofundou a escravidão desde um estágio material ao mais íntimo das relações humanas e globalizou a revolução.

“Os proletários nada têm de seu a salvaguardar; sua missão é destruir todas as garantias e segurança da propriedade privada até aqui existentes.” 

Trechos do Manifesto Comunista

A Rússia era o país mais conservador numa Europa revolucionária. Era uma espécie de baluarte da reação contra uma Alemanha e França revolucionárias. Esse baluarte se desfez com a revolução de 1917.

A revolução russa não apenas destruiu um modelo social, mas a própria lógica científica ao afirmar que a ciência deve influenciar e transformar a realidade, ao invés de estudá-la, conhecê-la. Esse afã de transformação da realidade é a origem da engenharia social moderna, onde a praxis mandou a teoria às favas. A Escola de Frankfurt é sua mais cara “mercadoria” e também fábrica dos grande ideólogos que contaminaram todo o mundo com suas inversões, relativismos, falácias e estratégias revolucionárias.

Os intelectuais marxistas se gabam de inaugurar a crítica da mercadoria, o que está no primeiro capítulo d’O Capital, de Karl Marx, e esta revolução teria também o crédito de transformar nossas percepções e conceitos. É uma tautologia tão infantil que não deveria ser mencionada, mesmo nas academias francamente marxistas: o mérito da revolução é ter revolucionado. Vejamos: eles se orgulham de contestar que a propriedade privada é a única maneira de organizar a sociedade;  contestam que todos nós temos que ser competitivos e que todos procuram sua utilidade individual; contestam que temos uma natureza humana independente da configuração política, etc, etc. É o império da crítica totalitária e absoluta.

O marxismo nos diz que por trás de todo produto há uma cadeia social de produção e não apenas um número, uma mercadoria e que seu valor depende da quantidade do trabalho social. Aqui Marx fundamenta sua teoria da exploração. Não vou aqui desfazer sua teoria pífia, que a Escola Austríaca, e muito antes, os seguidores de São Tomás de Aquino na Universidade de Salamanca, já o fizeram, mas é oportuno assinalar que como teoria política e econômica, quando se torna hegemônica, e se impõe como única,  pela força, deixa de ser teoria e continua a se desconstruir, fugindo tanto da realidade quanto da própria inconsistência intelectual. O comunismo, como bem demonstrou o filósofo Olavo de Carvalho, é mais uma cultura que outra coisa. É uma força de transgressão que se generalizou e se alimenta dos ressentimentos, apelando a todas as vítimas da história. Tem um clamor quase religioso, ainda que condene criminalmente a religiosidade humana.

Como assumir uma postura científica do marxismo, quando, desde sua origem, o próprio Marx dizia não ser marxista, haja vista a enorme variedade de versões do marxismo? O que ficou marcado foi a ideia de uma “ciência” a serviço da transformação social, o que dá um poder extraordinário ao discursos de seus seguidores. Na verdade, o marxismo não segue o rigor do saber científico. É tanto uma usurpação da ciência quanto da religião. A apropriação do conceito de científico, em detrimento do utópico, foi dada pelo próprio Marx, para diferenciar do que vinha acontecendo na França, por exemplo, regida pela guilhotina. Mas em nada se aproxima do saber científico.

A apologia da revolução russa como um corte no conformismo é outra falácia, pois na história o espírito revolucionário é tão antigo quanto Lúcifer. Não há nada de novo nessa revolução nem mesmo o fato de se auto-intitular o caminho e a verdade. Mesmo porque os caminhos revolucionários são vários e contraditórios entre si, onde os fins justificam os meios, e a verdade já foi pro brejo com seu relativismo iconoclasta.

Os revolucionários não se declaram divididos sobre os fins de uma sociedade socialista, mas sobre os meios. Ora, é justamente a escatologia comunista que mais contabiliza cadáveres e sonhos e condena a todos os que sonham a história, pois se mostra um paraíso sem Deus. O quiliasmo proletário, como uma paródia do paraíso celeste, requer ódio e ressentimentos dirigidos a uma destruição constante, enquanto o paraíso celeste das religiões pressupõe homens com coração de criança, fortalecidos pelas vicissitudes da existência, ao invés de negá-las; plenos de uma esperança que requer sabedoria ao invés da ignorância; virtude ao invés do vício. A espiritualidade legítima implica em servir ao invés de ser servido, bem ao contrário da ideologia comunista que nos transforma em crianças sedentas de prazeres, sempre insaciáveis, onde o Estado é seu único tutor.

Loading Facebook Comments ...

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*


Lista dos artigos