Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

A Onda Conservadora

Conceituar a “onda conservadora” ou mesmo identificar a sua existência no Brasil não é tão fácil. Há um amálgama de ideias políticas, culturais e econômicas que podem não ser filosoficamente coesas, mas refletem uma certa unidade social contra um outro conjunto de ideias e práticas que comumente se resume como ideologia de esquerda, identificada não apenas como centralismo estatal ou totalitarismo, mas já como uma agenda de ideias progressistas que distanciam paulatinamente o homem de suas raízes biológicas, sociais e religiosas. Hoje temos mais clareza que essa agenda, a despeito de seu discurso inclusivo e humanista é, na verdade, totalitário.

Esse novo fenômeno social no Brasil, mais rotulado pela esquerda que auto-intitulado de “onda conservadora”, não pode ser reduzido a uma mera insatisfação popular.

Análises que entendem essa insatisfação como uma mera reação contra escândalos de corrupção e tributação escorchante são incapazes de perceber as variantes histórico-culturais do fenômeno, que não é só brasileiro.

Não é tão fácil comparar os movimentos sociais que irrompem no Brasil desde 2013 com a resistência na Polônia ou a eleição de Donald Trump nos EUA. Há uma diferença substancial quanto a consciência dos valores que se defende e isso é fundamental num movimento Conservador. Seria mais fácil identificar os valores de uma Tradição ameaçada na Polônia que no Brasil, e talvez estejamos desesperados por pertencermos a uma Tradição, mas, sem sombra de dúvida, estamos mais próximo do que se conhece como Tradição Ocidental do que daquelas que planejam sua extinção.

É igualmente reducionista identificar toda a corrupção política com a esquerda, mas o fato desta ter institucionalizado a corrupção e praticamente quebrado o país não deixa margens a nuances sociológicas. Ainda assim, a população surpreendeu teóricos e especialistas e expulsou de palanques e manifestações de rua políticos de vários espectros ideológicos. Não há dúvida de que a perda de identidade atinge a todos os partidos.

A reação popular no Brasil é contra o status quo e não se restringe ao denuncismo contra a corrupção, mesmo porque, graças a atuação magistral da “Lava Jato”, os grandes esquemas de corrupção foram desbaratados e mecanismos anticorrupção avançam para espanto do mundo inteiro e ainda assim a “insatisfação” avançou: derrubou o governo Dilma, elegeu Bolsonaro, discute a criação de ministérios, pautas da mídia, decisões do Supremo Tribunal, currículos escolares, tolerância religiosa, declarações de artistas e fazedores de opinião e parece não ter mais limites.

Esse movimento se observa em várias camadas sociais e não apenas de líderes intelectuais ou financiados por grupos econômicos que foram negligenciados pelo poder. De certo que as redes sociais tiveram um papel unificador muito mais eficiente que qualquer dos movimentos políticos históricos. Parece haver uma indignação uníssona, que ultrapassa as redes sociais e invade as aeronaves, os estádios de futebol, as ruas, praças.

É justamente essa inquietação contínua, essa crítica constante ao que é público ou publicado que está levando a reações contrárias, essas sim, estranhas ao processo democrático. Há muitas tentativas para “regular” a liberdade de expressão na internet em nome da lei e da ordem, como se numa democracia isso fosse fácil.

É lugar-comum definir a democracia como a busca do bem comum, a igualdade econômica, política, social, etc, mas não pode existir democracia sem a controvérsia. No entanto, há uma nova estratégia de sobrevivência dos grupos afetados em suas instâncias de poder ou no conforto de seus lares, que confunde ou procura confundir a controvérsia com a intolerância.

Muitos pensaram que a guerra de notícias e denúncias se encerraria após as eleições. A classe política e fazedores de opinião tentam “regular” e ridicularizar as manifestações e parecem acuados por processos jurídicos e quedas de popularidade.

Parte da própria população parece deslocada nas redes sociais insistindo em postar matérias sobre saúde, animais, natureza e demais preferências pessoais, também acuadas pela insistência de temas políticos. Não estou fazendo nenhum juízo de valor contra tais matérias, ou privilegiando outras, mas é público e notório o quanto tais pessoas estão desconfortáveis e até irritadas com o contínuo interesse de seus círculos sociais pelos temas filosóficos, políticos e econômicos.

Há, sem dúvida, uma guerra semântica que procura subjugar a controvérsia e o debate como se estivéssemos ameaçados pelo populismo fascista. Essa estratégia gramsciana, tão bem conhecida por acadêmicos e intelectuais, está sendo desmascarada e se popularizando também pelas redes sociais e isso é inusitado. A insistência em tais temas nas redes sociais nos dá a sensação de que a “caixa de Pandora” foi aberta para sempre. Quem viver verá.

Pode parecer óbvio desvendar a contradição, por exemplo, que há no discurso político que defende a tolerância e o diálogo com quem não é tolerante e pretende eliminar quem pensa diferente. Esse é um dos maiores dramas enfrentados na Europa. A própria ex-presidente, Dilma Rousseff, em 2014, na ONU, numa entrevista, sugeriu que “o diálogo era o caminho para enfrentar o Estado Islâmico”, enquanto este decapitava e empalava na Síria e ainda hoje mata cristãos e quem não se submeter à fé islâmica. Mas o óbvio não é tão simples.

Muitas das reflexões que assistimos no Youtube ou no Facebook foram elaboradas há décadas por intelectuais como José Osvaldo de Meira Penna, Roberto Campos e Olavo de Carvalho. A contribuição desses filósofos vai muito além da política ou da economia e já despontam no imaginário brasileiro como herois nacionais. E nada mais perigoso, para projetos coletivistas, que o valor dos indivíduos. Por isso assistimos, também pelas redes sociais, campanhas sórdidas de assassinato de reputação contra Olavo de Carvalho. Essa estratégia é antiga na guerra cultural.

A chamada “onda conservadora” me parece ser justamente uma tomada de consciência política, ainda que relativa e provisória, por parte da população, abrangendo várias camadas sociais, que vai além do partidarismo, discutindo temas centrais da cultura e que os afetam diretamente. Está se desvendando com mais ou menos reflexão e análise, a lógica de dominação e controle por trás de agendas políticas e culturais, mascaradas por discursos humanistas.

As redes sociais não dizem nada do atual fenômeno se procurássemos explicações unicamente em sua capacidade tecnológica de disseminar ideias sem levar em conta quais são essas ideias e o contexto histórico que as suportam.

As críticas à “onda conservadora” brasileira não partem só da esquerda, mas, como não poderia deixar de ser, do próprio grupo. Há que se criticar sempre a si mesmo. Toda a Tradição, desde Sócrates, o exige, e jamais poderíamos pensar que podemos gozar das benesses da modernidade tão somente mudando o governo e liberando os preços. Neste sentido, tanto os expoentes da esquerda quanto os da direita sabem que a eficiência econômica é um tema importante mas provisório. A unidade de um povo, o espírito nacional, toda uma Tradição de valores, eis o é que é fundamental.

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