Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

Um negócio da China

A grande treta do momento é a confusão gerada pela viagem que deputados recém-eleitos fizeram à China e a suspeita de espionagem através de um software de reconhecimento facial. A mídia em geral critica o filósofo Olavo de Carvalho por uma suposta influência ideológica no governo. Há muita coisa em pauta, muito xingamento, mas as discussões levantadas pelo Olavo de Carvalho são muito importantes e um possível impacto na balança comercial não deveria encerrar tais discussões, que estão apenas começando num Brasil que se reconstrói com independência e coragem. Além do que a questão da espionagem tecnológica não é nenhuma novidade no cenário internacional. Desdenhar o avançado sistema de controle da população pelo governo chinês é no mínimo ingenuidade e encerrar essa discussão com a pecha de ideológica é de uma estupidez perigosa.

A China avança ferozmente seus sistemas de controle centralizado e o fato de sermos anões na geopolítica internacional não deveria nos eximir moral e estrategicamente. Claro que princípios, moralidade, valores não se conjugam sem um pragmatismo inteligente, mas não é essa a discussão que observamos na mídia e em alguns analistas de política e relações internacionais. Todos se apressam em defender uma análise puramente mercadológica e usam o Olavo de Carvalho como judas, como sempre, de forma covarde, disfarçada e ignorante. O fato de termos um governo dito liberal na economia nos condenaria a uma lógica puramente mercadológica? A guerra cultural que enfrentamos, e não apenas no Brasil, pode prescindir de uma análise sobre o poder para além do economicismo?

Os deputados que foram à China estão no meio de uma discussão que não compreendem e reagiram com  desespero e despreparo. Não podem opinar sobre o assunto, que na verdade são vários e complexos, e apenas defendem sua dignidade com xingamentos e afetações de honra.

O articulista Luciano Ayan comparou o Brasil com a Libéria dos anos 80 quando, ensaiando uma briguinha com países comunistas, se aproximou dos EUA que logo depois o abandonou, escondendo o fato de que o então presidente, Samuel Kanyon Doe, implantou uma ditadura baseada na etnicidade e reprimiu a oposição política. Como comparar o atual alinhamento político de Bolsonaro  com os Estados Unidos com o de Samuel Kanyon Doe?

A jornalista Vera Magalhães rebaixa ainda mais a crítica ao analisar toda a celeuma como uma mera interferência ideológica de um professor “online”.  A jornalista engrossa o coro dos detratores do Olavo de Carvalho, com igual empáfia e ignorância, ao identificar a “influência olavista” como uma mera indicação de cargos, quando devemos também ao trabalho pedagógico de décadas desse filósofo a possibilidade mesma da alteração de poder real, além das siglas partidárias, e a reinserção do Brasil nas grandes discussões da humanidade, estejamos ou não a altura delas. A análise segue sem identificar os problemas reais das relações internacionais que foram apresentados pelo Olavo em muitas de suas aulas e livros, principalmente na obra “Os Eua e a Nova Ordem Mundial” e tenta desmerecer a análise filosófica diminuindo a importância dos problemas discutidos, como se qualificar de “ideológico” fosse suficiente.

Muito ao contrário do que pretendem, a reação da mídia aumentou ainda mais o interesse pelo Olavo de Carvalho que, desde a eleição, triplicou a venda de seus livros, o que é um “negócio da China”.

 

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