Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

Direita, volver!

O povo parece ter acordado, como agente político, quando assistimos a manifestações populares em todos os continentes, contra vários tipos de regimes, movidos com certa espontaneidade, numa certa autonomia de lideranças político-partidárias, graças também ao fenômeno das redes sociais. Estaríamos no início de uma “democracia real” em oposição à democracia liberal? Essa polêmica está no centro das discussões acadêmicas e partidos políticos.

Entender esse fenômeno como um mero produto das mídias digitais é um estratagema sociológico que não apenas reduz a compreensão do fenômeno como também mascara uma manipulação reducionista, na tentativa de devolver as massas às suas lideranças tradicionais, políticas ou culturais. O controle das mídias digitais, seja por decisão autocrática de estados totalitários, seja pela ameaça legislativa à liberdade de expressão ao pretender o controle  de “fake news”, é justamente uma reação das instituições que perdem o controle da narrativa dos fatos e das decisões políticas.

Claro que essa tensão é consequência de múltiplas crises: a crise no emprego devido a revolução tecnológica, o choque civilizacional cuja crise migratória é um de seus capítulos, a desigualdade social, etc. O que parece unificar ou potencializar o descontentamento geral das populações, ainda que de maneira incipiente e amorfa, são, sem dúvida, as mídias digitais, mas elas, por si só, não explicam os motivos e os contextos sociais e históricos dessa revolta que se avoluma, dessas “primaveras” culturais e sociais.

Christopher Lasch em The Revolt of the Elites and the Betrayal of Democracy, desde a década de 1990, já apontava para uma tensão entre as elites intelectuais, políticas e artísticas, e o senso comum do homem médio. Esse homem comum, que estaria representado pelos valores tradicionais e espirituais que fundaram a civilização ocidental, estaria se rebelando contra toda uma agenda de engenharia social que contraria suas necessidades e valores mais básicos. A crítica social desse intelectual apontou para a decadência das liberdades das famílias e do homem médio, cada vez mais longe do homem cosmopolita, desenraizado e narcisista.

Mas quem é o povo? Ideólogos à direita e à esquerda disputam sua paternidade ao longo da história. Há preocupações legítimas em ambos os lados do espectro político, mas é inegável que as ideologias de esquerda historicamente são as que mais traem suas intensões humanistas levando o povo a níveis sociais e espirituais mais degradantes. Essa deficiência das ideologias de esquerda não se resume à incapacidade de suas soluções econômicas diante da complexidade da economia. A crise generalizada a que me refiro vai além da questão econômica.
Os inimigos do povo se encontram em ambos os espectros e tanto a decadência promovida pela ineficiência do socialismo quanto o progresso promovido pela eficiência do capitalismo comungam da ideia de uma engenharia social cujo avanço tecnológico tornará as próximas governanças num poder totalitário inimaginável. Esse é o núcleo da temática conservadora que incomoda à esquerda e à direita, ainda que seja mais próxima da liberdade econômica que a direita defende.
O progresso tecnológico, cuja miniaturização traz o controle e a monitoração cada vez mais próximo ao indivíduo, aumenta o poder de controle dos estados modernos como nunca na história. O caráter escatológico dessa crise e o que podemos fazer contra esse Leviatã já está anunciado desde as grandes tradições espirituais, mas isso exige mais consciência e responsabilidade de cada indivíduo. Essa pauta conservadora é o mais difícil de todos os desafios, pois como reascender o espírito empreendedor numa população aliciada pelo paternalismo estatal? Como reascender a responsabilidade moral numa população desleixada pelo hedonismo moderno? Como reascender a busca pela verdade numa população dominada pelo relativismo generalizado?

A unidade do que seja um povo, a consciência dessa unidade e seu conjunto de valores, por mais plural que seja, deve ser resgatada. Em nome dessa unidade, que não se confunde, com as ideologias coletivistas tirânicas do século XX, surgem líderes populistas ocidentais que travam uma luta quase inglória em várias frentes. Esses líderes não são plenamente conscientes da complexidade desses desafios, mas encarnam essa demanda histórica. Eles lutam para soerguer seus países do atraso econômico e social; lutam contra a perda da soberania pelo globalismo e lutam contra o espírito revolucionário que é tanto político quanto religioso.

A esquerda busca a unidade dos povos, mas a unidade que busca é a de uma massa de manobra a serviço de uma estrutura de poder ainda mais totalitária que todos os poderes que dizem combater. A fraternidade de esquerda é policialesca e sua igualdade não é a de oportunidades, mas a de resultados, forçando artificial e tragicamente a economia e a natureza humana. A direita, por outro lado, se colocou até então como uma mera reação ao subdesenvolvimento promovido pela esquerda e desdenhou, com raras exceções, os aspectos ideológicos. Esse erro fundamental fez da direita um mero mecanismo de correção econômica a ser espoliado pela esquerda futura. Esse mecanismo desgastou-se e uma certa urgência ideológica anima os novos movimentos populares, multiplicados também graças à tecnologia das mídias digitais.

Desdenhar esses aspectos ideológicos, pois, não é apenas pedantismo de uma isenção ignorante, mas um tipo de conivência perigosa.

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