Ronaldo Castro de Lima Júnior

Escrevo, quando dá na telha.

A guerra pela eternidade do futuro.

A etnografia é o estudo da vida material, social, crenças religiosas e sistemas de comunicação de um determinado grupo com o objetivo de descrever o mais fielmente possível a sua vida. O estudo geralmente é composto de monografias desses grupos culturais, a partir de trabalhos de campo e da observação direta. Ao utilizar esse método antropológico o etnógrafo Benjamin R. Teitelbaum no livro War for Eternity procurou analisar comportamentos e ideias de três intelectuais contemporâneos, Steve Bannon, Alexandre Dugin e Olavo de Carvalho, e suas supostas ligações com regimes políticos da chamada direita alternativa, que nada mais é que um eufemismo para a extrema direita, ou seja, grupos sexistas, conspiracionistas e de supremacia branca. O autor escolheu esses três intelectuais devido não apenas a uma certa aproximação com líderes políticos de direita, no caso, Donald Trump, Vladimir Putin e Jair Bolsonaro, mas essencialmente por uma, também suposta, formação cultural comum baseada no Tradicionalismo, definido por ele como uma escola filosófica e espiritual “subterrânea”.

Mesmo amparado pelo método antropológico o autor confessa que seu interesse pelo assunto foi motivado pelo medo e pelo alarme. É até compreensível, uma vez que ele entende o Tradicionalismo como a fonte do mal, o espírito por trás de grupos radicais e preconceituosos.

É verdade que o Tradicionalismo tem uma crítica profunda contra a modernidade e ao se combinar com radicalismos ideológicos à direita ou à esquerda potencializa toda e qualquer motivação e seu livro pretende denunciar tal radicalismo na nova direita.

A crítica à modernidade é apenas uma das camadas que o Tradicionalismo apresenta e o autor faz sua defesa da modernidade tão somente por ridicularizar, com uma ignorância acadêmica, a complexidade dos temas como um mero labirinto de conceitos metafísicos ou saudosismos medievais. Os personagens centrais dessa trama não foram escolhidos para aprofundar nossa compreensão sobre o Tradicionalismo, mas servem, ao contrário, para torná-lo ainda mais obscuro. Todos eles em têm uma aproximação tanto do Tradicionalismo quanto do poder político de tendência mais conservadora e o autor, de maneira engenhosa, procura ligar as contradições e conflitos da ação política com um certo obscurantismo do Tradicionalismo em sua crítica à modernidade. Ele transforma assim tanto esses intelectuais quanto os projetos políticos, que supostamente apoiam, em ícones do obscurantismo, do atraso e um perigo ao progresso. O principal tema do livro, no entanto, não foi apresentado: o Tradicionalismo.

Com uma breve descrição, quase marginal, o Tradicionalismo foi apresentado como um amalgama esotérico de crítica filosófica ao progresso. Ainda que tenha citado expoentes  como René Guénon, Frithjof Schuon, Julius Evola dentre outros o autor apresentou o Tradicionalismo a partir do que os tais gurus da nova direita entendem sobre o assunto, em rápidas entrevistas, com lacunas mais abissais que o obscurantismo alegado.

A tecnocracia que o progressismo moderno avassalador nos impõe e o distanciamento do homem comum de uma elite cada vez mais globalista, não preocupam o autor, mas está no centro do debate tanto pelos políticos dessa nova direita quanto seus supostos gurus. Na verdade o autor pressupõe que tais críticas são puro anacronismo. Eu poderia arriscar que a tese central do livro é a de que a crítica ao progressismo é uma escatologia mais artificial que a cibernética.

Para ilustrar as incongruências e perigos do Tradicionalismo o autor apresenta contradições e radicalismos na vida e obra do três gurus. Ele acha estranho o aparecimento de Steve Bannon nos EUA como ligação entre o homem médio e suas origens tradicionais, pois nega que tais raízes existam nos EUA. Apresenta Olavo de Carvalho como um discípulo rebelde do Tradicionalismo e fundador de sua própria seita e Alexander Dugin como um rasputin de Vladimir Putin. As contradições das ações políticas desses intelectuais em torno do poder são usadas como provas cabais da incongruência e anacronismo do próprio Tradicionalismo. O autor se gaba de um método científico, mas confessa aversão preconcebida e sua obra não passa de um folhetim de bastidores onde não sabemos realmente nem o que é o Tradicionalismo e nem e o que realmente pensam os tais gurus.

É sintomático que o mais profundo conhecedor do Tradicionalismo, Olavo de Carvalho, não apenas pela profundidade intelectual, mas por sua participação em um caminho ascético, tenha sido o mais desprezado em suas investigações. Justamente o intelectual que venceu um debate contra Alexander Dugin, foi cortejado pelo próprio Steve Bannon e seja o mais avesso a qualquer projeto político. Leiam “Os EUA e a Nova Ordem Mundial. Um Debate entre Alexandre Dugin e Olavo de Carvalho”,

Embora tendamos a pensar em moderno como significando algo novo ou atualizado, a modernidade é tanto um método para organizar a vida social quanto um período histórico. Essa modernidade, assim como todo e qualquer método e período histórico é passível de crítica e o Tradicionalismo é apenas uma delas. De certo que o enfraquecimento do simbólico em favor do literal e o distanciamento da vida moderna da autêntica espiritualidade é uma das críticas mais contundentes de René Guenon e grandes intelectuais reclamam esse esvaziamento da modernidade, mas isso seria suficiente para vê-los como parte de um movimento unificado da direita pela tomada do poder e de uma séria ameça contra as conquistas da humanidade? O autor não esconde esse medo que cresce quanto mais complexo o tema se apresenta.

Os tradicionalistas apresentam valores em um sistema de pensamento muito além da política moderna de esquerda ou direita, mas o autor resume o Tradicionalismo como uma espécie de esoterismo do neofascismo, ainda que ele admita que os movimentos nacionalistas ao longo do planeta são meros arroubos anticapitalistas desajeitados.

O que é mesmo estranho e infantil é a tentativa de encaixar categorias diferentes sob o mesmo nível de realidade. A pobreza filosófica do autor não percebe a critica de valores atemporais do Tradicionalismo. Por exemplo, ele mistura o preconceito racial com o sistema de castas hindu, reduzindo tudo a categorias sociológicas. A análise que ele faz do sistema de castas com a hierarquia de valores e as eras históricas demonstra ignorância total do pensamento analógico. Para ele, religiosidade, antiguidade, raça ariana ou branca, masculinidade, hemisfério norte, adoração ao sol e hierarquia social são temas do tradicionalismo e prova cabal de que os movimentos de direita são ameaças de um novo imperialismo travestido de espiritualidade.

A crítica é mais apropriada ao italiano Julius Evola que realmente mais se aproximou de ações políticas concretas, e, talvez, o Alexander Dugin, dentre os três “gurus”, seja o mais próximo de tal desatino, mas pensar em soluções políticas sem observar a crise de valores a que estamos submetidos é apressar os passos rumo ao abismo.

Toda a contribuição filosófica, simbólica e poética do tradicionalismo foi reduzida a um maquiavelismo político para caracterizar a nova direita como um racismo intelectualista ou coisa que o valha. Assim ele mistura a crítica à modernidade, enquanto desprezo pelo passado e fé cega no progresso, com movimentos políticos de xenofobia, misoginia e repressão sexual. Ele se esforça para esconder a desonestidade intelectual de tais conclusões ao apresentar um emaranhado de personagens que defendem e publicam autores Tradicionais enquanto patrocinam suas ações políticas neonazistas.

A crítica valorativa que os tradicionalistas fazem é apresentada como uma mera agenda política reacionária e preconceituosa, quando, na verdade, a crise moral contemporânea é ela própria uma agenda forjada politicamente com reais intenções revolucionárias, ou seja, estranha à própria natureza humana e aos fundamentos sociais que mantém a comunidade humana coesa.

Confundir a reflexão do Tradicionalismo (perenialismo) ou a visão de mundo metafísica com um projeto político é  desonesto quando não um reducionismo tosco de todo o pensamento à categorias marxistas. O autor procura rastrear as atividades pedagógicas do Steve Bannon, do Olavo de Carvalho e do Alexander Dugin como se fossem representantes de uma Escola de Frankfurt invertida. Essa sim, foi um centro que disseminou a teoria crítica e criou uma agenda de corrupção do pensamento e do comportamento humano.

O livro é uma sequência sobre ideias e parcerias ocultas que operam nos movimentos populistas de direita em várias nações e o Tradicionalismo é utilizado como se fosse a filosofia unificadora de ações retrógradas. Ele tenta classificar o Tradicionalismo como um movimento político radical que busca criar uma ordem política diferente de tudo o que temos, quando na verdade o marxismo é a ideologia mais radical e revolucionária que a humanidade já viveu e ainda é hegemônica.

Suas conclusões são verdadeiras manchetes da CNN: “Durante o ano e meio que se seguiu ao meu primeiro encontro com Steve Bannon, eu aprenderia como o tradicionalismo impulsionou seus esforços contínuos para elevar Donald J. Trump, alinhar os Estados Unidos e a Rússia, bem como suas campanhas para apoiar partidos nacionalistas em todo o mundo enquanto visando a União Europeia e o Partido Comunista da China.”

Sua análise é pontualmente pertinente em relação às pretensões políticas de Dugin que patrocina conflitos como se a Rússia contra o Ocidente fosse a expressão da luta da tradição contra a modernidade, mas projeta tais delírios para todas as manifestações políticas e críticas filosóficas contra a modernidade e elege o Tradicionalismo como a fonte de todos os males.

A desordem na geopolítica, o incentivo aos separatismos étnicos, sociais, sexuais e todo tipo de sectarismo é uma constante no movimento comunista, mas, segundo o autor, o Tradicionalismo, que sempre foi antirrevolucionário, é o verdadeiro espírito revolucionário a coordenar as ameaças da extrema direita.

O autor identifica no Tradicionalismo um ressentimento contra o multiculturalismo e uma crítica a uma certa impotência da democracia, mas não vê apenas anacronismo e obscurantismo nessa crítica e não percebe ou esconde que o verdadeiro movimento revolucionário patrocina e utiliza essa fragilização da democracia para criar um poder ainda mais totalitário, que já ultrapassa os conceitos de direita e esquerda.

É verdade que existe uma guerra pela eternidade, mas ela é antes a expressão da tensão entre o universal e o particular, fartamente observado ao longo da história da filosofia e na arena política entre o coletivismo e o individualismo.

Ao longo da obra descobrimos outras inversões, como seu conceito de metapolítica para qualificar a luta cultural como mais um exemplo da obscuridade da nova direita em sua busca pelo poder, quando sabemos que a hegemonia cultural é próprio da agenda progressista.

Ele resume toda a insatisfação dos britânicos que levou ao Brexit como uma vitória da metapolítica de Steve Bannon, ainda que tenha tido um papel relevante na vitória do referendo, conforme assinala Nigel Farage. Assim também os esforços de Bannon para criar uma escola na Europa baseada em valores tradicionais é considerada pelo autor como uma escola de fanáticos. A criação da TV Tsargrad, que foi baseada na Fox News nos Estados Unidos e se esforça para dar voz aos russos cristãos ortodoxos conservadores pode ser um instrumento manipulado por intenções políticas, mas, ainda assim, é tão legítima quanto qualquer canal de comunicação que divulga uma programação cultural oposta aos valores conservadores. O autor não esconde sua visão progressista e apresenta todo esforço contrário como uma ameaça a ser combatida. Concordo que uma guerra contra a modernidade é um projeto quixotesco, mas todos o são. Não acredito que possamos reviver a crença religiosa para servir a um propósito social ou político. A fé vem do coração e não pode ser convocada, mas implorada unicamente a Deus. Igualmente é absurdo esperar que a religião ou princípios esotéricos possam resolver todas as disputas e dúvidas da existência, mas por que estaríamos impedidos de buscar? Não somos todos Édipos? É claro que o autor já fez suas escolhas e suas análises acadêmicas não passam de rotulagem e preconceito.

Uma prova de que o autor desconhece a dimensão espiritual por trás das visões de mundo de cada idealismo político é a sua estranheza na ligação entre Tradicionalismo e populismo, pois, segundo ele, o Tradicionalismo é hierárquico e o populismo é contra elites. Essa confusão de categorias permeia toda a obra e em grande parte é consequência da pobreza intelectual que o marxismo nos deixou. O populismo é sim um movimento político anti-establishment, anti-elite e que defende as massas e repousa sobre uma real inquietação do homem médio contra uma elite cosmopolita e desenraizada. As tradições espirituais manifestam uma hierarquia de valores que são verticais e não horizontais. Não estou afirmando que o populismo seja fiel a tais valores, mas que nascem de um vazio, de uma humilhação sofrida pelo homem comum. A tese de que estrategistas da direita alternativa utilizam o Tradicionalismo como ferramenta ideológica para instrumentalizar esse anseio populista é interessante, mas está longe de explicar o próprio anseio, a própria crise gerada por um progressismo que é tanto de direita quanto de esquerda. É possível ver tais manipulações e apropriações em Alexandre Dugin, mas encontramos exatamente o oposto em Olavo de Carvalho cujo objetivo é pedagógico, intelectual e não a liderança de militantes.

O autor é obrigado a reconhecer que a hierarquia do Tradicionalismo expressa uma ordem sagrada da espiritualidade sobre o materialismo, mas ele está mais preocupado em criticar uma possível classe particular de pessoas que buscam revigorar tais valores. Steve Bannon, Olavo de Carvalho e Alexander Dugin são assim utilizados como espantalhos contra tais iniciativas.

A crítica dos autores tradicionalistas contra a decadência intelectual e moral de nossa elite também é a crítica de Steve Bannon, Olavo de Carvalho e Alexander Dugin, mas o autor vê nessa crítica uma simples vontade de poder oculta por um suposto obscurantismo e não observa a realidade mesma dessa decadência: a mídia não informa, os cientistas não fazem ciência, as universidades não ensinam mais e os políticos não entendem a política.

Por que a crítica filosófica ou mesmo uma ação política que procura dar voz ao mal estar de uma cultura seja condenável? O Brexit, a eleição de Donald Trump, Jair Bolsonaro e os vários movimentos políticos conservadores europeus são tão obscuros assim? O autor tenta desqualificar tais movimentos como consequência de estrategistas ocultistas e isso não é apenas uma desonestidade intelectual, mas uma estratégia em si mesma.

De todos os três personagens, o Steve Bannon é o mais respeitado pelo autor que até se esforça por alcançar uma possível unidade do seu pensamento, prejudicado não pela complexidade dos temas metafísicos, mas também pela própria fragmentação das entrevistas. Segundo ele, Steve Bannon acredita que o acesso a esses valores mais altos não é prerrogativa de um tipo de pessoa, mas está disponível para todos. Em vez de ter estágios fixos, a hierarquia seria como um caminho aberto para indivíduos e sociedades. O que Steve Bannon defende ele chama de “mobilidade espiritual” e compara com a insistência liberal no direito de melhorar a situação material ou a mobilidade econômica de alguém, o que estaria de acordo com o seu nacionalismo americano e seu compromisso com o homem que foi feito por si mesmo, transferido da economia para a espiritualidade, subindo assim na hierarquia, incorporando valores e essa seria a raiz de sua paixão pelo movimento em torno de Donald Trump.  Essa hierarquia social do Tradicionalismo, uma ordem de valores que se deslocam do material para o espiritual, é identificado pelo autor como uma “Metafísica do campesinato”, que dá título a um de seus capítulos. Esse é um dos melhores capítulos de seu livro, mas essa interpretação espiritual é rebaixada a um mero nacionalismo romântico.

Há muita confusão conceitual e apenas quem conhece as obras dos autores tradicionalistas pode desfazê-la. A confusão entre classe trabalhadora e o estamento espiritual ou entre minorias, que são categorias sociológicas marxistas, com a visão Tradicional da natureza humana são algumas delas. Olavo de Carvalho seria o único dos três com condições intelectuais para orientar adequadamente o autor nessa obra, se e somente se, o autor buscasse verdadeiramente compreender os fenômenos políticos atuais e a influência das várias correntes espirituais por trás delas.

Ainda que seja professor e autor de uma teoria política, “A Quarta Teoria Política”, Dugin é mais um ativista: promoveu políticas, organizou protestos, invasões e viajou pelo mundo pressionando governos por toda a Eurásia.  Bannon foi um feroz ativista político, sempre procurando reformular a cultura política e a sociedade nos Estados Unidos e na Europa Ocidental. Olavo é o único dos três com uma vida inteiramente dedicada à filosofia.

Acredito que o autor tenha sido levado a acreditar que há na direita alternativa um elemento nazista devido a aproximação que Julius Evola teve com o nazismo nos anos 30 e, ao identificar que a formação intelectual dos três maiores “influenciadores” dessa nova direita passa pelo Tradicionalismo, ele procurou identificar essa intenção oculta. A tese parecia promissora. O Julius Evola sabia que o foco dos nazistas na raça biológica eram sinais de que foram consumidos pelo cientificismo, ou seja, por formas modernas de pensar, e, por outro lado, ele decidiu melhorar a campanha alemã, reorientá-la, inspirar o misticismo em seu senso de raça, na esperança vã e bizarra de criar uma população totalmente ariana que buscava a pureza do corpo e do espírito. Nem os fascistas nem os próprios nazistas aceitavam a interpretação “espiritualizada” de Evola que foi realmente marginalizado. O autor acredita que os três líderes da nova direita têm semelhante idealismo espiritual. Isso parece ser verdade com Alexandre Dugin e o Steve Bannon, mas é escandalosamente falso em relação ao Olavo de Carvalho e por isso ele tenha sido utilizado de maneira tão decorativa nessa obra, mas assim mesmo o coloca como autor de um certo nazismo esotérico.

A estratégia de apresentar ideias como a “destruição criativa” como uma agenda do caos da nova direita é outro estratagema. Ele afirma que o Steve Bannon quer ver a desmontagem em massa de nossas maiores agências governamentais, e tudo isso ao lado de outras agendas de desmembramento da União Europeia, assim como do mainstream e do livre fluxo internacional de pessoas, bens e dinheiro. Ele cita o próprio Bannon para corroborar essa quimera: “para tornar a América ótima novamente, você precisa. . . você precisa interromper antes de reconstruir.”

A quem pertence o futuro? De certo que recuperar a eternidade é um sonho ou um pesadelo demasiadamente humano, mas jamais poderá sê-lo para os que condenam o passado, para aqueles que só acreditam no futuro, numa utopia cujo genocídio não depende de versões, a não ser que destruam a história.

Loading Facebook Comments ...

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*


Lista dos artigos